27 de março de 2018

Me chame pelo seu nome

Me chame pelo seu nome

Em Me chame pelo seu nome, André Aciman conta uma história cercada de realismo, identidade e paixão. A autenticidade do sentimento dos personagens me prendeu logo nas primeiras páginas e contribuiu para que o leitura do livro se tornasse uma experiência incrível.

Elio tem dezessete anos e é filho de um renomado professor universitário, que a cada verão seleciona um intelectual aspirante a escritor para hospedar-se em sua casa. Durante seis semanas, o escolhido vai usufruir de todas as maravilhas de um verão na costa italiana enquanto obtém auxílio para compor sua obra — e é assim que Elio conhece o americano Oliver.

"Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi?"

Me chame pelo seu nome

O romance dos dois está claro desde o início, mas leva um tempo — mais ou menos metade do livro — para se desenvolver. Essa foi a única coisa que me incomodou um pouco, mas os próprios personagens esclarecem essa questão em uma passagem do livro: foi o ritmo deles. O tempo que precisaram. E essa demora apenas serviu para intensificar ainda mais os momentos vividos.

"— Você tem uns pensamentos às vezes... você vai ficar bem.
— Talvez. Mas talvez não. Desperdiçamos tantos dias... tantas semanas.
— Desperdiçamos? Não sei. Talvez só precisássemos de tempo para descobrir se era isso mesmo que queríamos."

Me chame pelo seu nome tem uma característica que me chamou a atenção: a veracidade. Eu sou apaixonada por histórias que parecem reais, que passam o sentimento de realidade, aquela empolgação de pensar "isso poderia ser comigo ou com alguém que conheço". Não pelo cenário, não pela construção do enredo no que diz respeito à ambiente familiar — mas sim pela incrível relação humana entre Elio e Oliver. O livro se passa na costa italiana, mas quando os dois estão juntos é apenas isso: os dois. De nada importam os detalhes.

A narrativa do Elio é inquieta. É inquieta mas também é eficaz — não peca em passar para os leitores os sentimentos de angústia e de dúvidas que permeiam aquele relacionamento. Ele assume para si o que sente, sabe o que deve fazer com aquilo e aí lhe falta a coragem, depois ele a ganha, apenas para perdê-la novamente. Conflitos. É um ciclo de perguntas de mais e respostas de menos, de descobertas, de sentimentos a flor da pele e de muito, muito desejo.

"A forte batida do meu coração quando ele aparecia sem aviso me aterrorizava e me fazia vibrar ao mesmo tempo. Eu tinha medo quando ele aparecia, medo quando não aparecia, medo quando ele olhava para mim, ainda mais medo quando não olhava."

Observar suas oscilações de humor em decorrência de sua situação é um prato cheio para quem ama analisar comportamentos. Ele assume para si mesmo o que sente desde o início, sim — mas isso não o impede de tentar constantemente se enganar. Não o impede de renegar o próprio desejo, de agir em desacordo e fingir que está tudo bem. No fim das contas, ele sempre descobrirá que não está, e isso impulsiona a história.

Me chame pelo seu nome

Já Oliver é um personagem desconcertante, do tipo que nunca sabemos exatamente o que está pensando — nossa visão de sua personalidade está encoberta pelo olhar do Elio, então vamos lhe conhecendo à medida que nosso narrador o faz.

Me chame pelo seu nome é atemporal. Se passa nos anos 80, mas poderia estar acontecendo agora mesmo, em qualquer lugar do mundo. Tem um quê de paixão, de aventura, de uma história que não foi vivida — mesmo que tenha, de certa forma, sido vivida. Eu fiquei angustiada pelas sombras de um "e se" que permeiam toda a narrativa, pelo desencontro, pela não coragem deles em se rebelar e viver o que tinham que viver, pela total compreensão dessa não coragem em viver o que tinham que viver. Não só Elio e Oliver sofrem com os inúmeros sentimentos conflitantes em sua história — nós também.



"O fogo dilacerou minhas vísceras (...) Não era o fogo da paixão nem um fogo devastador, mas algo paralisante, como o fogo de bombas de fragmentação que sugam o oxigênio ao redor e deixam você ofegante como se tivesse levado um chute na boca do estômago e o vácuo tivesse rasgado todo o tecido pulmonar e deixado a boca seca, então você espera que ninguém fale, porque você mesmo não pode falar, e reza para que ninguém peça que você se mova, porque seu coração está entupido e bate tão rápido que cuspiria estilhaços de vidro antes de permitir que qualquer outra coisa fluísse por suas cavidades estreitadas. O fogo do medo, do pânico, mais um minuto e eu vou morrer se ele não bater à minha porta, mas ainda assim prefiro que nunca bata."


As citações ao longo dessa resenha, acredito eu, passam um pouco da sensação que é ler o livro. Destaquei muitas mais, porque simplesmente não pude me controlar. O livro não é fácil, angustia, mas vale a pena. A intensidade vale a pena. Leiam Me chame pelo seu nome.

Me chame pelo seu nome




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leia mais:
+ eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
+ o amor segundo buenos aires
+ quando finalmente voltará a ser como nunca foi


Escrito por: Jennifer Macieira
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