9 de dezembro de 2017

Uma semana brasileira na Fundação Gota de Leche | Projeto Merry Christmas - Parte II

Fundação Gota de Leche, Medellín

Atividades improvisadas, mas desenvolvidas com muito empenho e carinho marcaram minha experiência no projeto merry christmas, especialmente na segunda semana em que eu trabalhei na gota de leche, porque tivemos espaço e liberdade para liderar uma turma de crianças mais velhas com o auxílio de suas professoras, e não o contrário. Finalmente conseguimos falar do Brasil e tomar o controle da situação para fazer a descrição do nosso projeto acontecer.

Perdemos tardes inteiras desenvolvendo algumas das nossas ideias, viramos noites e passamos alguns perrengues, mas pequenos gestos dos pequenos, sorrisos e palavras nos deixaram bobonas e muito satisfeitas com os cinco dias de festas e cultura brasileira que conseguimos promover na fundação! Toda a equipe foi muito generosa e solícita conosco, seja distraindo as crianças até aprontarmos tudo, seja nos ajudando a nos comunicarmos com elas da melhor forma, além de nos cederem materiais de papelaria e artesanato para algumas das nossas invenções. Se você pretende participar desse projeto no futuro, poderá tirar daqui ideais bem legais.

Os mexicanos também fizeram um trabalho muito bonito e a medida que eu for falando sobre o que eu a Manu fizemos, vou tentar relembrar a marca que eles deixaram também - dentro e fora dos bastidores. Tive a sorte de conhecê-los e de conhecer a cultura mexicana de um jeito diferente, mais informal e autêntico, de forma que todos os dias eu aprendia algo novo, a ponto de eu começar a escrever algumas coisas e ficar ainda mais curiosa para conhecer seu país.

Para entender todo o processo que nos trouxe até esse momento, sugiro a leitura de pelo menos esses três posts, especialmente se você tem a intenção de participar do voluntariado:
Mas eis aqui nossas peripécias diárias...


dia 1: apresentação

Fundação Gota de Leche, Medellín

No primeiro dia nessa turma nova, ficamos meio perdidas. Passamos o fim de semana anterior em Guatapé e só voltamos para Medellín no domingo à tarde, exaustas para sequer nos preocuparmos muito com isso, então a Manu teve a ideia de levarmos apenas alguns desenhos de bandeirinhas do Brasil e palitos de churrasco para as crianças pintarem com as cores corretas e guardarem de lembrança. Eu já tinha feito alguns slides com fotos que podiam ser curiosas para elas e que podiam ajudar a nos guiar quando nos apresentássemos, então levaria meu notebook também e isso era tudo que nós tínhamos.

De última hora, agarrei minha bandeira - de pano, quase maior do que eu mesma - e joguei na mochila alguns objetos que eu trouxera para esse momento: apitos de madeira, peões, fotos... o que nós usaríamos de fato, eu ainda não sabia, mas o que poderia ser útil, estava ali dentro. Chegando lá, já um pouco atrasadas, todos nos esperavam num roda que tomava conta de toda sala. Os mexicanos estavam lá e duas professoras encarregadas de nos auxiliar. Eu e a Manu olhamos para a cena ainda do lado de fora, pela janela, e sorrimos de nervoso, mortas de vergonha de entrar de fato. Mal sabíamos que seríamos tão bem recebidas e acolhidas por eles.

As professores pareciam tão curiosas quanto os pequenos e nos ajudaram a organizar uma pequena apresentação para aquele primeiro dia, que acabou se alongando por toda manhã. Nós falamos um pouco sobre de onde surgiu o nome do nosso país, mostramos alguns animais, alguns desenhos animados e o que quer que tivesse me dado na cabeça no momento em que montei aqueles slides. Como neles só haviam fotos, cabia a nós inventarmos algo para falar em cada uma! E diante daquela telinha minúscula, todos queriam estar pertinho para ver, o que acabou deixando todo mundo reunido em volta da cadeira, de mim e de uma das professoras, que muito gentilmente, segurava a nossa bandeira.

Fundação Gota de Leche, Medellín

E os pequenos não ficavam calados, pelo contrário, perguntavam sobre tudo e nós fazíamos o melhor para respondê-los. Às vezes, eles viravam nossos professores, falando sobre as diferenças da nossa cultura para a deles. Quando apareceu uma fotinho de uma arara, por exemplo, nós os ensinamos a falar a palavra, depois eles prontamente nos disseram que ela se chamava guacamaya em espanhol - o que eu não fazia ideia. Em outro momento, falamos sobre os significados das cores na nossa bandeira e eles nos falaram sobre os das cores na bandeira da Colômbia! Uns fofinhos, sim senhores.

No momento da pintura, todos se concentraram naquilo. Nos dias seguintes, percebi que era uma das coisas que eles mais gostavam de fazer. Alguns eram muito cuidadosos, enquanto outros misturavam as cores - saiu até uma bandeira toda marrom, pois bem. Mas era muito legal ver todo mundo participando, ansiosos para nos mostrarem os resultados.

O único perrengue desse dia foi que faltaram desenhos, porque a turma era maior do que a gente previu. Além disso, os tais pequenos zelosos sobre os quais falei, queriam fazer mais de uma para que a pintura ficasse ainda mais certinha, então a Manu teve que correr numa lojinha lá por perto para imprimir mais, enquanto eu os distraia.


dia 2: carnaval

Fundação Gota de Leche, Medellín

Depois da nossa pequena introdução, tivemos a ideia de fazer um dia temático para cada dia da semana que restava e nada melhor que começar com o carnaval, mas como só tivemos a ideia quando terminamos as atividades da segunda, tivemos apenas uma tarde e uma noite para organizar tudo e produzir umas trinta máscaras coloridas e divertidas para as nossas crianças.

A tarde foi um fracasso, como vocês bem viram no post sobre o el castillo, então eu e a Manu tivemos que nos separar. Virei a noite na mesa da minha host com um estilete, cola, pedaços de lã coloridas, cartolinas e elásticos. 

O pior foi que, chegando lá, nos demos conta que além das nossas atividades, eles participariam de um juego con bombas. Não lembro se já comentei aqui, mas nessa fundação eles desenvolvem atividades diferenciadas em dias aleatórios e acabou que uma delas caiu bem no dia do nosso carnaval.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Por isso que, no começo, pensamos que o dia seria um desastre, mas carnaval combina com bagunça mesmo e a bombinhas de água ajudaram no efeito. Pena que não tivemos coragem de picotar nossas cartolinas coloridas para fazer confetes. Aquilo seria bagunça até demais misturadas com água, não seria, não?

Fundação Gota de Leche, Medellín

Antes do juego, colocamos marchinhas de carnaval, músicas de axé, dançamos, pulamos, mostramos vídeos e entregamos nossas máscaras para eles, que fizeram filinha para cada um receber a sua. Uma graça!

As atividades do dia foram simples, mas eu morri de amor com a empolgação deles, ainda mais quando vi que eles tiveram a preocupação de pedir para tirarmos suas máscaras antes de eles saírem para se molhar. E o mais fofo ainda estava por vir: depois do almoço, quando as professoras os prepararam para a soneca do dia, eu e Manu passamos para vê-los e pelo menos três crianças dormiam com elas. Todo o esforço valeu a pena para guardar aquela cena.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Enquanto isso, os mexicanos se organizavam para entrar na nossa brincadeira cultural.

Eles não fizeram atividades diárias como nós, mas os três dias em que eles resolveram se empenhar compensou pelos outros. Diferentemente da gente, eles não tinham um pingo de vergonha e pediram para reunir todos os alunos da fundação numa sala de vídeo, onde introduziram um pouquinho do México, a Soff e a Azu pintadas de catrina e tudo! Para falar sobre o día de los muertos.


Fundação Gota de Leche, Medellín
Fundação Gota de Leche, Medellín

Acabou que as crianças pequenas ficaram muito inquietas, mas o interesse dos mais grandinhos - incluindo eu e as outras professoras -  foi mais do que suficiente. Até a diretora foi prestigiar!



dia 3: festas juninas

Fundação Gota de Leche, Medellín

Ah, as festas juninas. Uma das minhas preferidas no ano! Especialmente pelas comidas e danças típicas. Uma pena que não tivemos tempo de preparar tudo o que queríamos para mostrar para as crianças. Pensamos até em montar uma pescaria, mas só as bandeirinhas consumiram todo o nosso tempo. 

As fizemoss com as folhas coloridas de um caderno de desenho que uma das professores nos deu e caprichamos na quantidade para conseguirmos arrodear toda a sala. O resultado ficou muito lindinho. (Na foto não parece tanto, porque as crianças já tinham puxado as linhas naquela altura, mas acreditem em mim, hahaha.)

Corremos para chegar antes das crianças e fazer uma surpresa pra elas, o que resultou em todas elas gritando fiesta! - assim que passaram da porta. Eu ficava muito boba, meu deus.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Mostramos para eles vídeos e slides sobre o são joão, como usualmente, mas eles pareceram muito mais interessados naquele dia e o motivo era um só: as quadrilhas. A ponto de me pedir para repetir o vídeo e as meninas apontarem para qual dançarina queriam ser. Elas adoraram os passos, as roupas e os ritmos. Crianças sabem das coisas.

Nós ainda tentamos montar um túnel típico junino com algumas músicas que tínhamos, colocamos eles para dançarem em pares e mostramos a turma da mônica! Antes que vocês pensem que eu endoidei e a turma não tem nada a ver, os desenhos eram juninos e serviram, além de para representar a festa daquele dia, para introduzirmos um pouquinho da nossa cultura infantil. Haviam vários desenhos diferentes e os que a a turminha estava reunida era o mais requisitado. Eu me sentava no chão com as crianças para ajudar todo mundo e aproveitava para explicar como era cada personagem.


 dia 4: folclore

Fundação Gota de Leche, Medellín

O dia do folclore foi o que nos deu mais trabalho e o que sentimos que as crianças menos ligaram, olha só que paradoxo.

Como vocês já devem ter notado, nós criamos a rotina de explicar um pouco o tema depois fazer atividades lúdicas para distraí-los e mantê-los interessados. Naquele dia, inventamos de levar nada mais, nada menos, que um bumba-meu-boi

Passamos o dia anterior completamente imersas na produção do bumba. Não passeamos pela cidade, nem brincamos com as crianças nos tempos vagos, acho até que mal comemos, só procurando caixas de papelão, materiais coloridos, fitas, caixas que serviriam para a cabeça... coisas completamente aleatórias, mas que fazia total sentido pra gente no momento.

Cobrimos a caixa de papelão, fizemos florzinhas coloridas para colar nos lados, desenhos para uni-las, colamos fitinhas para arrodear a parte inferior e fazer o rabo, entre outras coisas malucas que nos deixaram mega orgulhosa do resultado final. Às oito da noite, exaustas, sujas e com fome, parecíamos duas mães corujas admirando nosso trabalho.

Fundação Gota de Leche, Medellín

No dia seguinte, a Manu chegou atrasada depois de toda uma saga com o bumba dentro do ônibus e do metro lotado que pegávamos todas as manhãs. Mas ele chegou vivinho da silva! Percebi que as crianças gostaram mesmo da história do saci, mas as meninas também se divertiram um bocadinho vestidas com o bumba e deixamos ele lá de lembrança pra fundação.

Enquanto isso, numa outra sala, os mexicanos reuniram toda a fundação novamente, dessa vez com direito a um palco e tudo. Eles prepararam a apresentação de uma dança típica mexicana vestidos a caráter, com os famosos sombreros e trajes tradicionais, o que deixou todo mundo animado. Fiquei responsável pelas mudanças de músicas, esperando o sinal do Roque entre uma e outra, mas esse foi um papel em que quase fracassei, de tanto que me distrai e me diverti com os meninos.

Fundação Gota de Leche, Medellín

No final, pouco antes do último trechinho acabar, eles começaram a jogar balinhas e pirulitos que trouxeram do México, o que resultou nas crianças malucas para conseguir pegarem a maior diversidade possível. Tinham várias diferentes! Mas engraçado mesmo foi elas perceberem os sabores quando as abriam e as colocavam na boca: pimenta, tamarindo, molho de tomate e outras especiarias próprias do paladar mexicano que não agradaram a quase ninguém. Terminei o dia cheia delas, porque as crianças me devolviam chorando, dizendo que picava. Enquanto isso, os mexicanos as comiam como se fossem a melhor coisa e nós que fossemos os estranhos. Vai entender.


dia 5: comidas + feirinha de culturas

Fundação Gota de Leche, Medellín

Coloquei como tema desse quinto dia comidas feira de culturas, porque a diretora disse que ia disponibilizar pequenas tendinhas para mostrarmos o que dissemos que havíamos trazido para as crianças e porque resolvemos aproveitar para mostrar a eles nossos famosos docinhos e salgados: brigadeiros, beijinhos e pães de queijo. Mas bem que o tema também poderia ter sido emoção e muito chororô, que foi como terminamos o dia de fato.

A manhã foi bastante dinâmica, com vários jogos mexicanos, fotos brasileiras e mais um bocado de itens que vocês já viram no post da brasilidade, exceto por alguns objetos que eu guardei para a segunda fundação.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Além disso, os mexicanos passaram a semana empenhados em montar uma piñata - mais conhecida como quebra-pote. Aquele seria o dia de os pequenos fazerem a festa e eles bem que fizeram mesmo, até descobrirem que os doces lá dentro eram os mesmos da apresentação do dia anterior, hahaha. Mas foi divertido do mesmo jeito, as profes também nos colocaram para brincar, falando alguns trava-línguas, e a festa foi geral. (Eu, orgulhosamente, acertei de primeira "camarero, desencamaronamelo", só pra registrar, amigos. Agora tenta você aí!)

Fundação Gota de Leche, Medellín Fundação Gota de Leche,  Medellín

Sobre as nossas comidas, tanto as crianças quanto os adultos amaram e a concorrência foi grande para todo mundo conseguir provar ou repetir. Eu ainda fico descrente como algo tão fácil como brigadeiro pode ser motivo de tanto alarde mundo afora, viu? Mas fizemos nossa parte disseminando a receita por lá!

Como a equipe da fundação era muito grande, eu e Manu fizemos lembrancinhas com alguns docinhos para as crianças da nossa turma e para as professoras que nos acompanharam, para não correr o risco de alguém que nos acompanhou de perto ficar de fora.

Fundação Gota de Leche,  Medellín

Deixamos para entregar no final, então o momento da entrega acabou sendo uma despedida, quando meu coração ficou ainda mais apertadinho depois alguns abraços sinceros. A Margarida - minha primeira aluna, vocês lembram? - falou pra mim, num português claro e emocionado que iria sentir saudades e eu desmoronei.

Nessa nova turma, novos nomes fizeram parte da minha vida e eu sempre vou torcer para a felicidade deles, mesmo de longe, mesmo que eles não se lembrem. Shaira, Mariángel, Isabella, Soff, Jeremy e Violeta são apenas alguns dos que tornaram meus dias mais bonitos! Obrigada, pequenos.

Fundação Gota de Leche,  Medellín
Shaira muito democrática com as duas bandeiras, pra ninguém ficar com ciúme.

Fundação Gota de Leche,  Medellín
Euzinha toda besta quando Jeronimo me deu um abraço, mesmo caindo no chão de calça branca e tudo.

Fundação Gota de Leche,  Medellín
Jeremy pouco depois de me oferecer uma de suas balinhas (só para saber se ardia ou não, olha a cara do espertinho!)

E para completar, como se eu já não estivesse na pior, a diretora nos chamou até a sala dela para nos agradecer e nos falou palavras tão doces sobre a gente que não restou um par de olhos secos naquela sala - nem os dela. O tempo foi pouco, mas a convivência foi muito intensa e foi impressionante pra mim como nos entendemos com as crianças mesmo com a barreira do idioma, porque se já era difícil pra gente se comunicar com as profes, imagina com pequenos seres humaninhos em formação. Mas descobrimos que o amor tem uma linguagem própria e para conhecê-la basta abrir o coração.

Trabalhar nesse voluntariado foi uma experiência transformadora que eu recomendo para todo mundo, ao menos uma vez na vida. O Brasil também carece de ações assim, tenho certeza, mas acho que a ideia de ter algo específico para ensinar e me desafiar a fazer isso em outro país foi uma boa maneira de começar e sair da minha zona de conforto. Espero ter inspirado um pouquinho quem conseguiu terminar de ler esse post enorme. Ufa! Agora só volto a falar do projeto em outra fundação.

Vou deixar logo mais abaixo o link do vídeo de Medellín que está lá no canal. Não deixa de assistir se você ainda não viu, porque as crianças são grandes estrelinhas nele.  E ah! No meu flickr tem mais fotos desse projeto lindo.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Até mais! :)



Escrito por: Lisete Reis


 

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