15 de dezembro de 2017

Museo casa de la memoria e narcotráfico em Medellín

Museo Casa de la Memoria, Medellín • COL

Não por acaso, deixei para abordar um assunto tão importante atrelado à Medellín só agora, depois de já ter mostrado um pouco do que vivi e conheci na cidade. Foi a forma que eu encontrei de deixar claro o quanto ela transcende o estereótipo do narcotráfico, ainda motivo de muito preconceito de estrangeiros em relação a colombianos, sem excluir, porém, o impacto que a violência teve na cidade.

Cansei de escutar pessoas do meu convívio social questionarem o porquê da minha escolha, falarem que eu estava indo para a cidade do Pablo Escobar, entre outras coisas que poderiam ter me desanimado, se eu não tivesse um tantinho de persistência e vontade de vivenciar por mim mesma as mudanças que tanto li por aí, além de ajudá-los nessa empreitada. Ainda bem, descobri que Medellín é mais estruturada que muitas cidades do nosso Brasil e que seria absolutamente injusto relacioná-la apenas a esse passado negativo que ela vem se esforçando tanto para mudar, e com êxito.

Por outro lado, admito e ressalto que eles tem sim uma história muito forte de violência e tráfico de drogas. Isso não é algo para ser esquecido, muito menos negado, mas a forma com que eles lembram certas épocas é direcionada a fortalecer a ideia de quão errados foram os atos praticados e recordar suas tristes consequências, para que eles não se repitam. As pessoa pedem verdade, justiça e reparação para superar tudo o que aconteceu com mais dignidade.

Museo Casa de la Memoria, Medellín • COL

"Una casa de una memoria viva, una casa que avive la memoria. Una casa para los de arriba y los de abajo, para los que están vivos y escondidos, para aquellos que no quieren ver, para aquellos que en algún momento se tropiciecen y que se caigan en ese lugar, creo que debe ser una casa de la memoria para decirle también a los dueños de esta ciudad, y a los dueños de esta sociedad, ustedes han contribuido también a que esas cosas pasen..."

Nesse contexto é que foi construído o museo casa de la memoria, um dos lugares mais impactantes que visitei em Medellín. Ele não conta com nenhuma obra aclamada no mundo da arte nem com uma atração que vai chamar atenção de turistas em busca da selfie perfeita, mas ele tem algo especial no conjunto que oferece. Cada cantinho daquele lugar grita resistência, luta e uma bela homenagem a todos que sofreram e ainda sofrem com a violência na Colômbia.

Seu espaço conta ambientes voltados para instruir quem quer que entre por ali sobre o que se passou na cidade, com fotos, relatos, estatísticas e objetos que me deixaram muito emocionada. Desenhos da violência representado por crianças, poemas cheios de esperança, questionamentos e pedidos de socorro.

Museo Casa de la Memoria, Medellín • COL

"Sin el recuerdo de la injusticia, esta se repite en el presente."

Um dos cômodos, em especial, ficou gravado na minha mente e até agora, escrevendo esse post, consigo recordá-lo com muita clareza. Ele se chama recinto de la memoria e conta com várias salinhas interligadas no completo escuro, se não fossem por pequenos pontos de luz nas paredes, simbolizando estrelas e fazendo uma linda homenagem às vítimas da violência na cidade, com seus nomes e fotos passando entre cada ponto.

Fiquei completamente arrepiada. Lembro que minha imaginação viajou em cada história, porque além dos nomes e das fotos, aparecia o que havia acontecido com cada pessoa, como desaparecimento, assassinato... Imaginem, então, milhares de nomes mudando o tempo inteiro, simbolizando vidas. Por tudo isso, me senti muito grata de ter tido a oportunidade de conhecer esse lugar. Foi um dica do pessoal da AIESEC - fomos juntos, inclusive - e eu não teria o descoberto de outra forma.

Só depois de um tempo, notei que ele estava no livrinho que comprei no MAMM (mostrei pra vocês nesse post aqui), sobre as rotas secretas de Medellín, pra vocês perceberem o quão pouco conhecido ele é, apesar de tão significativo. Ouvi rumores enquanto estava lá que ele corria o risco inclusive de ser fechado, pela falta de movimento, algo triste de verdade, porque ele representa a história de todo um povo.

Museo Casa de la Memoria, Medellín • COL

Escrevo esse post para tentar, de coração, divulgar esse lugar tão impressionante, que passa longe da rota de turismo tradicional, mas vale mais a pena que muitos outros lugares que mencionei por aqui, pelo o que representa e pelo o que tenta transmitir ao mundo.

El árbol de la vida, por exemplo, é uma obra que fica logo ao lado do museu, no parque bicentenário, construída com - pasmem - 27 mil armas brancas coletadas em diferentes processos de desarme nos bairros de Medellín! 82 corpos unidos, de homens e mulheres, representam milhares de vítimas. O quão forte é essa imagem, somada a essa informação?

A mensagem que fica é a de que não devemos agir como se nada houvesse acontecido. É importante lembrar, registrar e resistir para evitar que novas tragédias façam parte da história da cidade.

Li uma passagem fantástica por lá que fala exatamente sobre a importância de escrever algumas memórias, porque, caso não, elas se perdem e se dissolvem no ar. Essa é uma premissa que levo para a minha vida, não é a toa que escrevo minhas experiências por aqui.

Museo Casa de la Memoria, Medellín • COL

"Qué queda de la vida cuando uno no la recorda ni la escribe? Nada. Hay muchos pedazos de nuestra vida que ya no son nada, por un simple hecho: porque ya no los recordamos. Todo lo que no se recuerda ha desaparecido para siempre. La vida a veces tiene la misma consistencia de los sueños que, al despertarmos, se desvanecen. Por eso, uno debería tener con ciertos episodios de la vida - tal como hacemos a veces con algunos sueños - la precaución de anotarlos porque sí no, se olvidan e se disuelven en el aire."

À parte disso, não acredito de maneira alguma que a cidade se resuma ao seu passado. Ela vem se desenvolvendo de uma maneira incrível, de modo que até foi eleita a cidade mais inovadora do mundo há alguns anos atrás por uma ONG conceituada. Tudo isso representado visivelmente em espaços públicos de qualidade, que incentivam a educação, o lazer, o esporte e a convivência, como venho mostrando por aqui incansavelmente. Além de sua gente incrivelmente amável, apesar de tudo que já passou.

Não cabe a mim, ainda assim, dizer que Medellín está livre de todo o mal que a cercou por algumas décadas. Há relatos recentes de acertos de contas e violência em razão do tráfico de drogas, do poder e do dinheiro. Mas ela caminha para um futuro brilhante, com uma geração que tem acesso a melhores oportunidades e segurança pública reforçada.

Como alguém que passou quase dois meses por lá e fez tudo que podia fazer, inclusive uma visita a uma comunidade que já foi considerada uma das mais perigosas da cidade, acho importante pontuar que o maior risco que pude perceber foi o de me apaixonar e querer ficar. Então, se você tem vontade de visitar Medellín, não tenha medo. Abrace sua história, a conheça e ajude na sua transformação. Seu passado não a define, ainda que tenha deixado algumas marcas.


Museo Casa de la Memoria
Calle 51, La Playa con carrera 38.


Escrito por: Lisete Reis


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Nos conta sua opinião. ♡ Assim que podemos, publicamos e respondemos todos os comentários.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

https://twitter.com/maccieirahttps://www.instagram.com/jennifermacieira/https://www.flickr.com/photos/113227884@N07/



https://www.instagram.com/lisete_reis/https://www.flickr.com/photos/153046504@N02/

Facebook

Instagram

Youtube

Newsletter

Publicidade

Booking.com