12 de outubro de 2017

O natal que é levado a sério: alumbrados navideños, día de las velitas e mais

Parque Explora, Medellín • COL

A maneira com que Medellín comemora o natal é uma das coisas mais bonitas e emocionantes de se ver e viver na cidade. Ter tido a chance de fazer parte disso no ano de 2016 foi o aspecto mais positivo de ter escolhido viajar em dezembro. Meus pais estranharam de início que eu fosse fazer o intercâmbio nessa época, mas acho que ela influenciou tanto na forma com que vivi certas experiências que não desejaria ter viajado em nenhum outro momento. Muito pelo contrário, eu recomendo que as pessoas conheçam Medellín pertinho do fim do ano e percebam a magia que ronda a cidade nesse período.

Para começar, eu fui recebida na casa em que fiquei durante as três primeiras semanas com decorações natalinas por todas as partes - até dentro do banheiro. A árvore de natal deles era tão alta que chegava até, praticamente, o teto da sala de estar, onde haviam pequenos presépios e objetos decembrinos meticulosamente colocados num centrinho de mesa.

Antes que vocês possam ter uma imagem errônea da realidade, atentem para o fato de que tudo me parecia de muito bom gosto, talvez apenas um pouco exagerado, mas entendi que poderia ser algo da família. Na minha casa mesmo, meus pais também aderiam a filosofia natalina dos panos de papai noel, plaquinhas de feliz natal! na porta de casa e qualquer outra coisa que minha mãe ache interessante pelas lojas aí afora.

Centro Comercial Oviedo, Medellín • COL

Só que no meu segundo dia na cidade, eu fui convidada para uma festa. Entendam, não se tratava de uma festa qualquer, era uma festa para comemorar a chegada de dezembro, e então eu comecei a perceber o quão maravilhosos e singulares eram os paisas.

A família da Maria, assim como o Santiago - seu namorado - se reuniu na casa de amigos para uma noite de músicas e comidas típicas. No começo, eu não podia estar mais envergonhada por invadir assim a privacidade deles, mas eles me acolheram tão bem que alguns instantes depois, eu fiquei muito feliz de não ter me encolhido num canto da casa da Maria quando eles disseram que já estavam indo. Aquela foi a primeira barreira que eu desconstruira em relação a minha timidez. 

Haviam poucas pessoas na casa, apenas minha família colombiana, as irmãs da Angela - mãe da Maria - que eu já conhecia, uma amiga, seu marido e seu filho, conversando sobre viagens e coisas que sempre me incluíam e me faziam sentir a vontade, mesmo que apenas ouvindo. O dono da casa era um senhor tão simpático, mas tão simpático, que eu ficava constrangida de recusar as milhares de comidas e bebidas que ele me oferecia, não demorei muito a provar cada coisinha disposta por ali. Para sua surpresa, umas frutinhas a quem ninguém estava dando muita bola e, infelizmente, das quais nem me lembro mais o nome, foram as minhas favoritas.

As outras pessoas também foram acolhedoras e eu sinto como se tivesse tido um momento especial com cada uma delas, como se elas tivessem feito de sua missão me deixar confortável e, surpreendentemente, conseguiram. Tanto que, em algum ponto madrugada adentro, o dono da casa me puxou para dançar e eu aceitei. Aprendi alguns ritmos típicos da região que eu não sei se teria conhecido de qualquer outra forma ou aceitado em qualquer outra ocasião. As mulheres se animaram para me ajudar também e essa se tornou uma das minhas lembranças mais felizes da viagem.

O Santiago, com seu português salvador da pátria, ainda fazia umas traduções simultâneas quando as conversas ficavam muito acaloradas e eu não entendia muita coisa. Sua habilidade com meu idioma materno só se voltou contra mim quando ele me pediu para cantar junto dele e de seu violão. Dei um enrolada, mas cantei, com vergonha e tudo, alguns trechinhos de os anjos cantam e de garota de ipanema, encantada por um momento com o fato de que havíamos trocado de lugar. Eles é que estavam curiosos com a minha cultura agora. Vivemos uma cambio incrível naquela noite.

Parque Norte, Medellín • COL

Talvez pareça insignificante, mas foi uma experiência atípica e inesquecível pra mim, ouvindo todos aqueles ritmos diferentes, conversas, provando comidas e frutas que eu nem conhecia, diante de toda aquela simpatia colombiana até às quatro da manhã, com pessoas que eu acabara de conhecer e já me tratavam como uma deles.

E só para constar: a casa das pessoas que nos receberam? Ainda mais decorada que a da Angela, especialmente porque eles tinham um ambiente que nenhum apartamento poderia ter: um jardim. Luzes por todos os lugares, era o que eu via. E as casas ao redor? Pareciam competir entre si, pelo o que eu podia ver nas fachadas. Era algo muito engraçado, eu juro. Voltei para o nosso apartamento com um sentimento bom no coração, de que fiz a escolha certa ao ter me permitido viver aquilo sem as amarras de sempre.

Parque Norte, Medellín • COL

No dia seguinte, mais uma novidade surpreendente: aquela seria a noite em que ligariam os alumbrados navideños da cidade, ou seja, luzes e enfeites de natal espalhados por toda Medellín, mas especialmente concentrados no parque norte, onde geralmente há jogos e brinquedos característicos de um parque de diversões, rodeados por um lago.

A Maria trabalhava com marketing e estava durante toda a noite da festa preocupada com o andamento desse evento, já que ele fora adiado por conta do acidente com os meninos da chapecoense, como ato de respeito e solidariedade, então me falou um pouco sobre ele. Fico até arrepiada de lembrar do momento em que ela me contou que isso nunca acontecera antes na história da cidade. Eles nunca adiaram o acendimento das luzes, era algo tão importante para eles que acontecia sempre no dia primeiro de dezembro, mas, excepcionalmente naquele ano, aconteceria apenas dois dias depois e ela precisava alinhar tudo para que as coisas acontecessem no tempo devido.

Parque Norte, Medellín • COL

Eu estava com a Soff nos arredores do parque norte na noite em que acontecera, nós acabávamos de sair do parque explora, onde passamos toda a tarde, mas não foi difícil encontrar o centro dos alumbradosBastava seguir as luzes. 

A decoração era orgulhosamente exagerada, mas achei muito legal o momento em que tudo se acendeu. Todo mundo parecia feliz e curioso para contornar todo o lago, onde elas iam mudando gradativamente e se espalhavam pelas extremidades mais distantes, com novos enfeites e estruturas iluminadas. A chuva nos castigou nesse dia, me impedindo de apreciar tudo direitinho, mas até a lástima que foi correr atrás de uma capa de chuva fez parte da experiência e eu acabei voltando lá muitas vezes. Pelo menos umas quatro, com pessoas diferentes e circunstâncias mais diversas ainda, além de grupo musicais que animavam a todos.

Em uma delas, a Maria pediu a mim e a Manu para prestarmos um depoimento em português mesmo sobre o que estávamos achando, para um vídeo promocional da cidade que a empresa em que ela trabalhava estaria fazendo. Não acabarei com a minha imagem expondo o vídeo aqui, mas foi mais do que divertido ver o Santiago procurar na multidão pessoas que aparentavam ser de fora e as abordar na maior cara de pau, perguntando suas opiniões sobre tudo, desde a comida de rua até as decorações de natal, enquanto um outro rapaz da equipe o filmava.
 
Parque Norte, Medellín • COL Parque Norte, Medellín • COL

Mas vocês não pensem que é tudo sobre imagem e aparências, o natal paisa também tem tudo a ver com fé e comprometimento com o bem, independente do que você acredita. A maioria das famílias que conheci participam de novenas, que funcionam como uma espécie de contagem regressiva para o natal, e comemoram o día de las velitas, uma noite reservada para que as pessoas acendam quantas velas forem possíveis em homenagem à virgem maria.

Nesse sete de dezembro, fui convidada para ir até a casa de uma outra família, a família da Laura, minha buddy. Ela foi uma menina designada pela AIESEC para me mostrar um pouquinho da cidade até que eu me adaptasse e ela mostrou mesmo. Não por pura obrigação, mas porque ela era genuinamente gentil e nos demos bem de cara. A noite na casa dela fora tão incrível quanto aquela com a família da Maria, talvez ainda mais, porque ficamos mais livres para andar pelo seu condomínio, conversar e se conhecer.

Além disso, a Laura tinha vários primos da nossa idade e nós passamos a noite com eles acendendo velas de diversas cores e pegando sua cera para criar uma enorme bola colorida, a qual ainda guardo de lembrança até hoje. Todos eles fizeram questão de me ajudar, como que para deixar sua marca comigo, e foram bem sucedidos. Parece até que vivi num universo paralelo, me conectando tão rápido a tantas pessoas!

O pai da Laura foi uma delas, inclusive, uma das mais amáveis e divertidas que eu conheci durante essa viagem, me ensinando a chamar seus irmãos pelos apelidos de infância, que incluíam expressões como mijão e baleia em espanhol, imaginem. Ele se despediu de mim perguntando se eu estava bem mesmo onde eu estava naquele momento e se eu não queria me mudar para a casa deles até o fim do intercâmbio.

Um día de las velitas em Envigado • COL

Gentileza. Bondade. Empatia. É sobre isso que é o natal paisa e eu sou muito grata a todos que viveram esses valores junto a mim, jamais teria aprendido tanto sozinha.

♡ 



Escrito por: Lisete Reis


 

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