29 de outubro de 2017

A piedra del peñol e o hostel que você respeita em Guatapé

Piedra del Peñol, Colômbia

Guatapé é uma cidade e pequeno município paisa localizada a menos de duas horas de Medellín, famosa por suas cores e uma vista incrível da represa construída no povoado el peñol - seu vizinho - após uma inundação que assolou seus arredores na década de setenta. Por isso é que ela foi o primeiro destino escolhido por mim, pela Manu, pela Letícia e pela Júlia, mesmo que mal nos conhecêssemos na época.

O centro de guatapé é todo alegria e beleza, um dos lugares mais coloridos que já visitei na vida, mas o nosso tour começou mesmo na piedra del peñol, pouco antes da entrada de guatapé em si. Isso porque nós não podíamos confiar que o clima permaneceria aberto por muito tempo, sem falar que para termos acesso à vista da qual falei, teríamos um longo caminho pela frente, afinal, mais de setecentos degraus nos esperavam até o topo da pedra. 

Tomamos essa decisão ainda na bilheteria - ou eu deveria dizer taquilla? - 14 do terminal norte de Medellín, quando compramos a passagem para lá e pedimos uma para el peñol, e não para guatapé. Esse terminal está conectado com a estação caribe do metro e conta com mais de cinquenta bilheterias que vendem passagens para as mais diversas cidades, então talvez vocês queriam anotar o número dessa aqui, levamos um tempo procurando por ela, mas a nossa viagem foi super rápida e confortável, a primeira que eu estava fazendo em terras colombianas, logo no meu primeiro fim de semana por ali. A empresa foi a sotra san vicente, a quem interessar. (Voltamos com uma outra no dia seguinte, mas a san vicente foi melhor sem dúvida alguma.)

Ao descermos no povoado el peñol, logo nos trataram de informar que não conseguiríamos chegar à base da pedra caminhando, a não ser que quiséssemos ficar no meio do caminho, sem conseguir subir as escadas, de tão cansativo que seria. De toda forma, o sol estava tão forte, em plena nove horas da manhã, que nem cogitamos a possibilidade mesmo e recorremos a uma moto com pelo menos três assentos para passageiros, que nós já conhecíamos como tuc tuc! Ali, ela passava a ser chamada de moto chiva, de tão enfeitada e colorida que ela era, o que nos fez parecer crianças, de tão animadas que ficamos, tentando nos adaptar àquele transporte de duas rodas completamente chamativo e indiscreto.

Moto chiva de Guatapé • COL
Como estávamos em quatro, alguém precisou ir ao lado do motorista, mas não pensem que as que ficaram na parte de trás sentaram tranquilamente. Ficamos com as mochilas enormes de todas se acumulando em nossas pernas, balançando no ritmo de uma furadeira a cada pedrinha no caminho ou desvio. Pelo menos aquilo não durou mais de dez minutos.

Ainda assim, não podíamos ter escolhido meio melhor para chegarmos até lá, não conseguíamos parar de rir diante daquela loucura que nos custou apenas 10.000 COP, para dividirmos entre todas. O rapaz nos deixou bem antes do pedágio que eles cobravam para o estacionamento, então ainda caminhamos um pouco numa subida íngreme, mas passamos por uma placa que nos dava as boas vindas para a melhor vista do mundo e ficamos mais ansiosas para descobrir se aquilo era verdade mesmo.

Piedra del Peñol, Colômbia

Para subir as escadas da pedra, precisamos pagar 18.000 COP cada uma, um preço salgado, mas bem pago para um dos lugares mais legais que visitei na Colômbia. Por 1.000 COP a mais, conseguimos deixar, ainda, todas as nossas mochilas num locker, o que nos deixou bem livres para cumprir nossa missão, apenas com alguns sacos plásticos cheios de comida e água: tudo o que era necessário. E a minha câmera, é claro!

Piedra del Peñol, Colômbia
Fomos subindo e subindo, parando para descansar e conversar, além de uma pausa maior no meio do caminho para comer, bem no recuo onde fica uma estátua da virgem maria, para não atrapalhar a passagem das outras pessoas.

Piedra del Peñol, Colômbia Piedra del Peñol, Colômbia

Mesmo assim, a escada na subida é bem larga, o que torna o caminho mais convidativo e fácil de seguir, sem falar na contagem de degraus desenhada pelo caminho, nos incentivando a continuar firmes, tanto que nós estávamos, surpreendentemente, tranquilas ao chegar ao topo. Nem acreditamos em quão de boa havia sido, mas isso só aconteceu porque não estávamos nem um pouco preocupadas com o tempo, apenas em passar momentos bons e conseguir fazer aquilo que queríamos sem desmaiar de cansaço.

Piedra del Peñol, Colômbia

Lá em cima, há lojinhas de artesanato e coisas típicas, bem como alguns pequenos depósitos de bebidas e vendedores avulsos, em barracas espalhadas pelo local, com frutas e micheladas - cervejas servidas em copos plásticos com a borda repleta de sal e um pouquinho de limão, pelo o que eu percebi. Como vocês bem sabem, eu não aprendo minha lição e sigo tentando experimentar as coisas que me aparecem, mas fui àquela única a não gostar de cerveja mais uma vez. Recorri às mangas frescas, também servidas com um pouquinho de sal, costume típico paisa. Quer dizer, eu já comia assim antes, em casa, mas nunca vi ninguém fazer o mesmo, ainda mais vendendo na rua dessa maneira, só em Medellín e seus arredores.

Enquanto estávamos sentadas, discutindo essas pequenas diferenças culturais que adorávamos observar, cansadas por todos os degraus percorridos, vimos ainda algumas pessoas terminando o percurso enquanto carregavam vários e vários engradados! Olhamos para eles pasmas, como se eles fossem algum tipo de alienígenas. Fazia sentido, porque não havia outra maneira de levarem as coisas lá para cima, mas nós não tínhamos pensado nisso até aquele momento. A Manu foi atrás de mais uma michelada e eu fui junto para perguntar na maior cara de pau se eles faziam aquilo todo dia e a vendedora respondeu que sim. Meus olhos devem ter ficado tão arregalados que a mulher sorriu junto da gente, depois de nós expressarmos todo nosso respeito, porque olha: aquilo é que era trabalho suado.

Mas nossa recompensa e a deles - todos os dias, mesmo com esse esforço todo! - não foi pequena. Acho que ela compensa mesmo o trajeto. Foi um daqueles momentos que me trouxeram brilho aos olhos, de tão lindo. É verdade que você vai observando o visual desde o início da escadaria e, no meio dela, você já tem uma boa noção da paisagem que te aguarda, mas colocar os pés no degrau setecentos e quarenta e olhar para a vista da represa que dera vida a uma cidade inundada não é pouca coisa.

Piedra del Peñol, Colômbia Piedra del Peñol, Colômbia Piedra del Peñol, Colômbia

Antes da subida, eu havia enrolado minha bandeira do Brasil na bolsa da câmera, mesmo convencida de que nem iríamos usá-la, mas não queria morrer de arrependimento quando estivéssemos lá em cima e essa se mostrou a melhor decisão. Ela nos representou tão bem ali em cima: quatro brasileiras de cantos diferentes do país que se conheceram em Medellín e já estavam viajando juntas. A Júlia e a Manu nem tinham se visto até ali! Essas coisas são tão incríveis, como se o universo, de alguma forma, tratasse de juntar pessoas com almas que se combinam, fazendo certos momentos darem muito certo.

Piedra del Peñol, Colômbia Piedra del Peñol, Colômbia

Para acabar comigo de vez naquele momento, uma criança africana, da Angola, se aproximou de mim, ainda com a bandeira enrolada pelos braços, e pediu com o maior sorriso e inocência do mundo para tirar foto com ela também, depois comigo. Ele, provavelmente, me apontaria como aquela maluca que estava desfilando pelo topo da pedra com uma bandeira nos braços, chamando atenção de quem estivesse lá, mas quem se importa? Foi um momento tão espontâneo e bonitinho que não vou esquecer.

Descemos bem mais exaustas do que subimos, por um caminho diferente e muito mais estreito, que formava uma fila enorme de pessoas, porque quem quer parasse, atrapalhava todo o resto que estivesse atrás. Só ali tivemos tempo de notar o quanto nossas pernas estavam bambas. Quando ficávamos paradas é que ficava perceptível mesmo. A vontade que tivemos ao chegar à base da pedra de novo foi a de nos jogarmos no chão, mas ainda cuidamos de ver umas lojas de artesanato lá embaixo, porque quanto mais ociosas, pior.

Só não pensamos que para pegar outro tuc tuc até guatapé, teríamos que descer todo o caminho até o pedágio e o trânsito estaria caótico pelo horário já tardio. Demoramos bastante para encontrar alguma moto chiva livre, abordando vários motoristas e recebendo algumas negativas até acharmos um rapaz disposto. Ele parecia tão jovem e feliz em nos ver, até, claro, abrirmos a boca e ele ficar claramente intimidado com nosso português alto e incessável.

O coitado permaneceu quieto todo o caminho até a guatapé, quando nos pediu instruções sobre como chegar ao nosso hostel, mas nós não sabíamos muito mais do que ele, apenas o nome do lugar e que se tratava de um hostel bem roots, um pouco afastado do centro da cidade, perto de paisagens naturais e uma cachoeira. Ele parecia quase em desespero quando entramos com sua moto chiva, uma passageira a mais e várias mochilas pesadas no pacote, numa estrada de barro pouco movimentada, com pouca distância de um precipício.

Nós estávamos tensas a essa altura, mas a moto pulava tanto e fazia tanto barulho naquele terreno duvidoso que nós não tínhamos nem como pensar demais, rindo de toda aquela furada. O pior é que estávamos seguindo o GPS e ele apontava naquela direção, não teve jeito. Foi só quando avistamos uma alma perdida no meio do caminho que ela nos avisou que teríamos que dar a volta, porque o hostel não ficava por ali, era bem mais perto da ponte, no centro, do que imaginávamos.

Casa Kayam Hostal, Guatapé • COL

Uma volta e meia depois, conseguimos achar o bendito, perguntando para pelo menos outras três pessoas, e ele era tão próximo mesmo! Descemos enfim e o motorista tinha a maior expressão de alívio do mundo, provavelmente bem arrependido por ter ido na nossa onda, mas educado o suficiente para levar a situação na brincadeira e nos cobrar apenas o que foi acertado antes, 10.000 COP. Nós é que ficamos mortas de vergonha e de dó e resolvemos pagar um pouco mais, pelos quase trinta minutos a mais que ele fizera à toa, mesmo não sendo nossa culpa.

Passada toda essa confusão, finalmente paramos de sorrir de nervoso e sorrimos por um outro motivo: o hostel era bem aquilo que imaginávamos e mais um pouco, com muita arte estampada nas paredes do local, móveis rústicos de madeira e pessoas das mais diversas transitando por ali, algumas trabalhando em projetos de marcenaria e outras no que parecia ser uma pizza para o almoço.

Casa Kayam Hostal, Guatapé • COL Casa Kayam Hostal, Guatapé • COL

Talvez eu tenha me chocado com um cara andando apenas com um lençol enrolado na cintura, mas pareceu algo tão natural na hora que eu juro que não foi desrespeitoso. Todo mundo era muito educado e parecia viver tão bem por ali.

No hostel casa kayam havia um espaço com livros do mundo todo, com várias poltronas e puffs espalhados pelo local. O mais legal é que você podia pegar um para você, desde que deixasse outro em seu lugar, o que tornava aquelas prateleiras meio mágicas e muito viajadas. Também havia uma caixa reservada para trocas de roupas, onde você poderia pegar algo e deixar algo que não estivesse precisando tanto, como sapatos ou camisas.

Aquele lugar emanava uma troca de energia muito boa, de verdade, diferente de tudo que eu já havia conhecido, e os hóspedes pareciam trabalhar para aquilo continuar funcionando. Alguns até viviam ali em troca de trabalho.

Casa Kayam Hostal, Guatapé • COL

O quarto em que eu fiquei com as meninas serviu perfeitamente para nós, porque só haviam quatro camas, o que nos deixou muito a vontade. Durante a noite, pedimos uma pizza para curtir a chuva que caia lá fora e ficamos por lá mesmo, escutando músicas boas pelas caixas de som do ambiente comum e conversando sobre tudo, enroladas nas mantas que corremos para pegar lá no quarto. Tudo nos pareceu tão tranquilo que até estranhamos. Na mesa em que estávamos, ao menos quatro tomadas faziam nossa felicidade, num ambiente pensado para ninguém se sentir perdido ou sozinho.

Casa Kayam Hostal, Guatapé • COL
Casa Kayam Hostal y Residencia Artística
Villa Adriana, Vereda El Roble Sector Aeropuerto,
053847, Guatapé, Colômbia.

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Escrito por: Lisete Reis


 

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