13 de junho de 2017

Preparação, ideias, decepções e soluções | Projeto Merry Christmas - Parte I

porta verde

Hoje é dia de começar a falar deles. Dos pequenos seres humaninhos que tornaram minha experiência mais feliz. ♡ 

Se você não faz ideia do que eu estou falando, talvez seja melhor dar uma olhada nesses posts antes de continuar:
Se você já os leu, não deve ser novidade que eu escolhi trabalhar com crianças no intercâmbio que fiz em Medellín. O primeiro link está cheio de coisinhas que comprei para levar para eles (menos a cachaça, leiam as letrinhas miúdas!) e sobre algumas expectativas que eu tinha, mas agora chegou a hora de desconstruí-las e mostrar como tudo aconteceu na realidade. 

Quando eu decidi para onde eu iria, eu estava bem feliz com a minha escolha. Fiz a entrevista com a segurança de quem havia pesquisado um milhão de coisas sobre a cidade, mas: ainda nada sobre o projeto. A verdade é que não havia muito para pesquisar, a descrição no opportunitties era bem simples e dizia apenas que deveríamos promover a multiculturalidade, fazer atividades relacionadas aos nossos países, entre outras coisas bem vagas. Caberia a nós pensar e colocar em prática que atividades seriam essas e de que forma nós iríamos apresentar nossas culturas.

Isso foi algo que estava me deixando muito inquieta, porque todo o objetivo da viagem se baseava nisso e eu não queria chegar lá para apenas me arrastar até o local de trabalho. Eu queria fazer o que eu fui ali para fazer, mesmo que ainda não fizesse ideia de como. Claro que o aprendizado que eu teria com as pessoas e a cultura colombiana, além das viagens que eu planejava fazer, eram importantes também, mas eu estava saindo do meu país comprometida com uma organização e não fazia sentido para mim fingir que isso não era nada de mais.

A semanas de viajar, tínhamos esse enorme grupo no whats app com todas as pessoas que iriam participar do projeto. Eram cerca de trinta pessoas falando dialetos diferentes do espanhol, português, inglês, enviando fotos, compartilhando coisas sobre si mesmas e discutindo o projeto, mas a ansiedade era quase palpável e ninguém chegava a falar nada muito concreto, tudo se baseava na expectativa de se conhecer, começar a trabalhar e viajar o mais breve possível. 

Tive esperança que o grupo de brasileiros no meio desse pessoal todo - já bastante grande na época - fosse animar alguma ideia legal. Nos demos bem de cara, sem nem nos conhecermos! Mas qualquer coisa que pudéssemos inventar foi por água abaixo quando descobrimos que fomos todos designados a trabalhar em fundações diferentes. Quando vi, estava eu e outros quatro mexicanos num grupo menor do whats app. Eles todos combinando coisas para levar, o que poderiam fazer, e eu ali, pensando o que diabos estava fazendo no meio daquelas pessoas. Até perguntei para a presidente do projeto: tem alguma coisa errada nisso, não? Mas ela disse que não, que eles analisaram nossos perfis e imaginaram que trabalharíamos maravilhosamente juntos. Porque ela achou que uma pessoa relativamente tímida com um espanhol meia boca ficaria bem num grupo de mexicanos, eu não sabia (apesar de ter descoberto depois ♡), mas lá fui eu afundar na má expectativa de estar sozinha para apresentar meu país.

espaço recreativo e plantas

No fundo, no fundo, eu sabia que isso poderia acontecer, então tentei não desanimar. Mobilizei minha família para me ajudar a comprar coisas interessantes para levar e o resultado foram alguns dos itens que eu mostrei no post sobre a brasilidade, mas eu sabia que só aquilo não seria suficiente. Levar coisas legais era importante sim, os chaveirinhos de tambor, apitos e lápis de madeira eram lindos e representavam um pouco do nosso Brasil, assim como as fitinhas do bonfim, barquinhos e fotos do nosso litoral, - eles adoraram! - mas contextualizar isso tudo e manter as crianças interessadas é que seria o desafio principal.

Explicando um pouco sobre o intercâmbio da AIESEC, eu comentei que todos que viajariam de Maceió, não importava para onde, fizeram um briefing para compartilhar ideias sobre o que fazer, não foi? Essa reunião foi a dias do meu voo, mas super importante para eu começar a enxergar novas formas de fazer o projeto acontecer. Pelas ideias das pessoas, eu tive algumas novas e dei sugestões para eles, então aquele dia despretensioso acabou sendo um dos mais produtivos.

Decidida a levar meu notebook, sem saber quais seriam as condições das fundações em que eu trabalharia, comecei a montar slides dinâmicos com fotos e vídeos sobre diversos temas que eu queria abordar com as crianças, desde uma breve introdução sobre o Brasil até sobre o nosso carnaval, festas juninas, folclore e brincadeiras típicas. Imaginei que dessa forma seria mais fácil ganhar sua atenção do que só falando e falando. Eu ainda teria que pensar em atividades que se relacionassem às lições, mas tentei não enlouquecer tanto antes de viajar e levei na mala os tais slides, algumas histórias para contar e os itens que eu comprei.

Tive uma nova reunião de equipe antes do primeiro dia de trabalho, dessa vez com as pessoas de Medellín, como eu contei aqui, onde conheci os mexicanos que trabalhariam comigo, e finalmente chegou o dia da verdade! Como ninguém sabia chegar direito, combinamos de nos encontrar numa estação do metro para aprender o caminho com algumas meninas da AIESEC e foi lá na estação San Antonio que eu conheci a Manu.

Eu estava sentada no meio de umas mexicanas que nem iriam para a minha fundação (sim, tinha gente do México pra caramba!) quando ela chegou e não demorou um segundo para a gente começar a conversar e não parar mais. Ela não era só uma brasileira que, por acaso, estaria participando do projeto junto comigo. Para a minha enorme surpresa, ela era uma brasileira de Maceió.

Quais as chances de uma menina da minha cidade estar em Medellín na mesma época que eu e a gente nem se conhecer, considerando que Maceió é tão pequena que praticamente todo mundo se conhece ou tem um amigo que conhece alguém, etc? Foi muito louco e muito feliz, porque nossa amizade funcionou bem demais, em circunstâncias que ninguém previu. Para vocês terem uma ideia, a Manu nem no nosso grupo de trinta pessoas estava. Ela já tinha começado a trabalhar há algum tempo na cidade, mas seu projeto acabou se tornando o mesmo do meu e acabamos juntas na mesma fundação, a Gota de Leche, cheias de vontade de fazer aquilo dar certo.

Fomos muito bem recebidas pela direção no primeiro dia, que nos apresentou todos os âmbitos da fundação, as professoras, funcionárias e nos explicou como tudo funcionava, desde os horários das crianças às nossas responsabilidades, então, desde o começo, tudo nos foi esclarecido e parecia que já eramos da casa. O problema foi que cada um de nós, inclusive os mexicanos - Roque, Hugo, Azucena e Soff -, acabou ficando numa turma com crianças diferentes, por escolha da coordenadora, e como ainda estávamos envergonhados, ninguém quis se impor e sugerir que ficássemos juntos. Para piorar, as minhas crianças e as da Manu tinham menos de dois anos.

O que é que a gente ia fazer com elas?

espaço recreativo com piso de madeira

Eles eram a coisa mais fofa do mundo. Desde o primeiro dia eram só curiosidade (os que já sabiam falar) e carinho, nos recebendo na porta, buscando atenção com abraços e chamando para brincadeiras que me deixavam com o corpo todo dolorido de tanto correr e dançar. Esse espaço representado na foto acima já esteve cheio de crianças pulando e correndo, com bolas de todas as cores e tamanhos espalhadas pelo local, imaginem. Não posso negar que mesmo dessa forma eu me divertia e sentia que estava fazendo algo de bom para eles, com cada sorriso que eu recebia depois dos momentos que passávamos juntos, mas aquilo não era o que eu estava ali para fazer.

A primeira semana acabou passando de forma automática, nós acompanhamos o dia a dia das crianças com brincadeiras e qualquer que fosse a atividade programada para elas naquele dia, mas eu e a Manu não nos conformamos e confabulamos uma forma de mudar aquela situação e ir para uma turma de crianças mais velhas. No começo, os mexicanos se mostraram mais relaxados e não pareciam muito a fim de mudar aquilo ali, então nos restou recorrer à nossa cara de pau e conversar com a diretora. A parte boa foi que a equipe dessa fundação era muito organizada e completa. Tínhamos nutricionistas para conversar, coordenadores, muitas professoras e até a diretora se mostrava flexível, tentando nos ajudar sempre. Devíamos era ter ido até ela mais cedo! Ela acabou foi achando linda a nossa iniciativa de querer fazer algo diferente e nos cedeu materiais de papelaria, tempo livre para organizar atividades sobre nosso país e horários fixos na turma mais velha pela semana que viria a seguir.

Com muito pesar, mas também felicidade de colocar a mão na massa, me despedi das minhas crianças menores e de suas professoras, com as quais criei um vínculo tão forte quanto. Através delas, fui capaz de colocar em prática o primeiro dos quatro pontos que a AIESEC tem como base para desenvolver liderança: o solution oriented, que se relaciona à resolução de conflitos e à formas de lidar com adversidades. Enquanto as crianças eram muito novinhas para sequer entender algo da sua própria cultura, me tornei amiga e professora das mulheres que nos acompanhavam e consegui me fazer útil diante daquela situação. Foi maravilhoso. ♡

Tudo começou sem querer, as crianças tiravam a típica soneca após a almoço e nós conversávamos para o tempo passar. Era meu segundo dia ali e algumas professoras ainda tinham algumas reservas comigo, mas bastou uma me perguntar algumas palavras e expressões em português, além de curiosidades sobre o Brasil, para as outras se aproximarem e se interessarem também. Eu respondia com prazer, achei até divertido, mas não imaginei que aquilo iria mais longe. Quando eu voltei no dia seguinte, lá estava a Margarita, minha primeira aluna fiel, com um caderno e lápis na mão, querendo saber mais e querendo registrar para não esquecer.

mulher com bandeira do brasil

Foi um dos momentos mais legais do projeto e quanto senti pela primeira vez que estava fazendo a diferença. Passei a ensinar algumas conjugações, palavras que pareciam as mesmas no espanhol, mas com significados diferentes no português e outras bem brasileiras mesmo. Elas tentavam formar frases e nós morríamos de rir com os resultados. Um dia, uma delas me surpreendeu dizendo para uma das crianças que ela era muito fofa, voltando sua atenção para mim logo em seguida, como quem pede aprovação!

Infelizmente, nossa rotina diária acabou mudando quando eu troquei de sala, mas deixei metade do coração na sala dos caminadores com as profes, a Mel, o Tomás, o Jeronimo, o Gui, a Suzie e tantos outros niños que colocaram um sorriso no meu rosto. Nos horários livres, eu sempre dava um pulinho lá para ganhar aquele abraço de urso maravilhoso que só eles sabiam dar e devolver muito amor.

Pode parecer pouco tempo para quem olha de longe, mas um segundo é tudo o que é necessário quando há carinho envolvido. Eu me apaguei muito aos meus pequenos e sei que eles também se apegaram a mim. Por mais que as profes estivessem ali com eles também, a rotina acaba enfadando as pessoas e elas podem começar a agir de modo desinteressado às vezes, algo que não acontecia comigo ou com os outros intercambistas, porque estávamos ali com o tempo contado e com disposição para fazê-los felizes. Em alguns dias, nos sentíamos quebrados, mas fazíamos de tudo para animá-los e acabávamos nos sentindo bem por eles estarem bem. ♡ Sinto falta disso.

Passada essa primeira semana, seria a hora de mostrar o Brasil para as crianças mais velhas, da forma que o projeto pedia. Os dias em que nos dedicamos a isso foram os mais exaustivos da viagem, cada um pensado estrategicamente para levar algo novo para as crianças no dia seguinte, como vocês vão ver, mas foram os mais produtivos também, cheios de satisfação e fofura. Falo com toda a convicção do mundo que minha experiência não teria sido completa se eu não tivesse feito isso, ia sentir que não cumpri meu papel direito. E ainda bem que eu e a Manu estávamos juntas nessa! Não sei como teria colocado em prática metade das coisas que inventamos se eu estivesse sozinha. Fizemos aquilo dar certo da melhor forma que podíamos, como uma equipe, e em breve mostrarei como se deu a semana mais brasileira - e mexicana! - que aquela fundação já presenciou. Conseguimos motivar o pessoal e eles arrasaram na representatividade, fazendo o projeto acontecer de fato. (Com direito a chuva de balinhas de chilli e tudo.) ♡



Escrito por: Lisete Reis


 

6 comentários:

  1. Amei !!!

    Estou amando ler seus artigos, sempre amei visitar seu blog e ler os artigos, sempre tem dicas e informações interessantes...

    Parabéns !!



    Colaboradora do Resultado Lotofácil de Hoje de Ontem

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    1. Que legal ler isso, Samara! ♡ Muito obrigada!

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  2. Que legal a sua experiência, Lisete! Eu trabalhei na AIESEC da minha cidade por alguns meses e gostava bastante. Até hoje quero fazer um intercâmbio, e sua história é bem inspiradora ♥
    O post está muito bem escrito, adorei o jeito como você descreveu sua experiência! :D
    Beijos

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Natália! Estou demorando muito para escrever sobre essa viagem. Ela foi tão longa comparada com as outras que eu fiz e tão cheia de coisas incríveis que às vezes me sinto perdida, acaba sendo um incentivo ler um comentário como o seu! Espero que você consiga viajar, foi minha melhor escolha ♡ um beijo!

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  3. Que experiência mais incrível que você teve com esse intercâmbio! Já disse e acho que vou sempre repetir isso. Desde ser um processo criativo e como funcionou toda a dinamica, achei tudo bem interessante.. e já tinha pensado várias vezes em ter feito algum desses programas pela AISEC.. não sei dizer, mas agora me sinto meio ''velha'' pra ir.. não sei, talvez seja só um pensamento bobo meu.. e lendo como foram tuas experiências por lá fico doidinha pra fazer algo parecido. Eu imagino o quão especial foi e a marca que você deixou no coraçãozinho daquelas crianças! <3

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    1. Que velha nada, Taís! O que importa é a vontade de ajudar ♡ ♡ ♡ Mas entendo você. Às vezes a gente sente que tá numa vibe diferente das outras pessoas. Pra mim foi super válido e especial porque foi minha primeira experiência independente, mas o que importa é a gente não parar e sempre buscar formas de se renovar nas viagens ♡

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