31 de maio de 2017

Do Poblado a Bello: onde eu vivi em Medellín

Janela com gotas de chuva

A poucas semanas de decolar, uma pequena pendência me incomodava um pouco: eu não tinha onde dormir em Medellín. Minha mãe estava mais inquieta com isso, sem querer que eu chegasse num país desconhecido sem rumo certo, mas de tudo que poderia acontecer essa nem era a pior hipótese. Na rua eu não ficaria, né? Fui logo pesquisando alguns hostels para o caso de o pessoal da AIESEC me deixar na mão, só que, felizmente, isso nunca aconteceu. Eles foram as pessoas mais queridas do mundo até escolhendo a família com quem eu ficaria, mesmo demorando um pouquinho. O único porém foi que essa família só estaria disponível até o meio de dezembro, porque depois ela viajaria e eu precisaria ir para outro lugar – só Deus sabia onde.

De início, eu fiquei relutante e apreensiva, me apeguei muito rápido à eles, mas essa mudança forçada me fez passar por duas situações completamente diferentes, mas igualmente maravilhosas e importantes para a minha experiência: a de morar com uma família colombiana, em um dos bairros mais ricos da cidade, e a de morar com intercambistas de várias partes do Brasil e do mundo, num bairro que nem em Medellín ficava. 

Esses dois lados da moeda duraram por quase o mesmo período de tempo e eu tive alguns choques de realidade, mas sou grata até pelas dificuldades, que me deram algum senso de responsabilidade em meio à relativa mordomia que eu tive antes. Ainda assim, a verdade é que elas foram facilmente superadas pelas risadas e coreografias no meio das madrugadas! Eu amei ter feito parte dessas duas famílias, mesmo essa última super improvisada, por motivos muito diferentes e é sobre isso que eu vou falar hoje.

quadro com barquinhos

Quando a Maria del Mar (sim, os barquinhos são por isso! ) entrou em contato comigo dizendo que eu ficaria na casa dela, respirei aliviada, porque de todos os lugares que eles poderiam me colocar, entre tantos tipos de família, eu iria ficar justamente com a de uma menina que me pareceu tranquila, disposta a ajudar, e que tinha muita coisa em comum comigo, desde o estudo do italiano ao interesse por design gráfico, escrita e viagens. Ela tinha acabado de voltar da Rússia, onde fez seu intercâmbio também pela AIESEC, além disso, seu irmão e seu namorado falavam português e tinham o maior interesse pelo Brasil.

Em que outra família de Medellín eu teria isso, eu não sei.

Meus pais também ficaram aliviados, especialmente quando ela nos disse seu endereço e vimos que seu apartamento ficava no Poblado, um dos bairros mais bem vistos da cidade, perto dos restaurantes e bares mais badalados. (Ok, dessa última parte eles não gostaram muito, não.) Então já viajei sabendo que estaria bem localizada, numa vizinhança relativamente segura e com uma família estruturada. Nós conversamos por toda a semana que antecedeu a viagem e isso me deixou mais calma para encontrá-los, mas eu tive meus momentos de paranoia e o caminho do aeroporto até o apartamento foi um deles. A mudança de sentimentos foi cômica e trágica. Num instante, eu estava animada e sorridente por estar em Medellín e em outro, quando ouvi que estávamos perto de onde eu ficaria, meu estômago já foi logo se revirando.

Eu não me sinto bem nem na casa de alguns parentes, rodeada da minha família mais próxima, imagina na casa de pessoas que eu nunca vi, sozinha. Isso foi algo que a minha mãe começou a me lembrar quando eu tomei a decisão de fazer o intercâmbio, para me persuadir a mudar de ideia, e eu a respondia contrariada com a falta de incentivo, mas foi lembrando disso que meu coração bateu ainda mais apreensivo durante o trajeto de dezesseis andares que fizemos para chegar ao 1601, porque minha mente me prega esse tipo de peça.

A presidente da AIESEC em Medellín da época me acompanhou. Eu precisei mostrar algum controle e fingir que estava escutando - e entendendo - o que ela estava falando. Quando a porta se abriu e a mãe da Maria, a Dona Angela, apareceu na maior simplicidade, arrastando com os pés alguns sacos enormes de brinquedos para passarmos, eu ainda estava meio tensa. A garota ficou tempo suficiente para nos apresentarmos e só. Adeus para mim e agora te vira, quase pude escutar seu pensamento. Eu juro que, de todas as situações que eu passei depois, aquele dia pareceu ser o ápice da minha falta de habilidade com o espanhol, mas se superamos aquilo, nada poderia derrubar nossa comunicação. A gente fazia mímicas, repetia palavras e dávamos risada de nós mesmas. Almoçamos juntas e, apesar de suas recomendações para que eu descansasse, ainda a ajudei a separar alguns dos brinquedos que ela iria doar e conversamos um pouco sobre Medellín, ela sempre muito simpática e compreensiva.

Para minha surpresa, depois de um tempo, eu já não me sentia na casa de estranhos. Tudo ainda era novidade e vergonha, mas não de um jeito incômodo. E eu acredito que ela já não deveria me considerar uma estranha também, porque naquela mesma tarde, estava eu sozinha no apartamento, livre para fazer o que eu quisesse, com a chave de casa embaixo do tapete.

Aprendi rapidamente que aquela família era uma das mais tranquilas do mundo. Cada um de bem com a vida, resolviam seus problemas e mal paravam em casa, mas quando paravam, gostavam de estar juntos e conversar. Conheci a Maria, seu irmão e seu namorado mais tarde naquele dia e me senti tão bem com todos que estranhei o que estava acontecendo. Ela me contou histórias do seu intercâmbio, trocamos ideias de músicas e, alguns momentos depois, ela já estava me oferecendo seus esmaltes, bem assim mesmo. O Esteban, seu irmão, se brincar, falava português melhor do que eu mesma! Ou pelo menos não dava bandeira de ser colombiano quando conversava comigo. O Santiago, seu namorado, já tinha uma fala mais engraçada, de quem está aprendendo, mas era muito divertido e me ensinava bastante do espanhol. Me apaguei a ele como a um irmão mais velho, do tipo que a gente zoa sempre, mas por quem também somos zoados, não é mesmo?

Esse foi, basicamente, o núcleo familiar com que convivi primeiro, no Poblado. Impossível falar dos locais por onde passei sem relacioná-los as pessoas que eu convivi, já que elas influenciam a forma com que eu me senti. Foi através dessas pessoas que eu fui convidada a minha primeira festa para comemorar a chegada de dezembro, uma novena natalina (ainda que só tenha chegado no finalzinho), uma entrevista (bem constrangedora), provei comidas típicas locais e aprendi muito sobre a Colômbia e o espanhol colombiano. 

Só essas coisas para mim já valeram o mundo. Claro que também tive vantagens práticas ao morar com eles, como o chuveiro quentinho, a proximidade ao metro, privacidade, comodidade e economia com comida e limpeza, já que eles sempre me ofereciam e tinham alguém para organizar o apartamento, sem falar na segurança. Mas isso tudo não valeria de nada se eles fossem pessoas de difícil convivência ou que me deixassem desconfortáveis. A primeira metade da minha viagem passou rápido e eu consegui aproveitar o que eles podiam me oferecer e ainda deixar o gostinho do Brasil com eles. Ao menos, gosto de pensar assim.

A segunda metade já foi mais tumultuada. A família adiou sua viagem, mas eu viajei no final de dezembro pela Colômbia e quando voltei para Medellín já era hora de me despedir de verdade. Só voltei para a casa da Maria basicamente para derramar algumas lágrimas e pegar a minha mala. Próxima parada: Bello. Eu estaria indo para um apartamento que alguns intercambistas estavam desde o primeiro dia. Mas onde é que ficava Bello mesmo?

paisagem com montanhas e prédios
Eu nem sabia que Bello não era mais Medellín, para mim era só mais um nome de estação do metro, então imaginem meu pânico quando levamos mais de uma hora para atravessar a cidade de carro no trânsito do fim da tarde. Estávamos eu, uma menina da AIESEC e seu namorado dando voltas e voltas nos quarteirões do bairro Cabañitas atrás do local correto. Descíamos ladeiras, subíamos ladeiras e nada. Onde diabos ficava aquele apartamento que eles mesmos alugarem nem eles sabiam. E imagina euzinha. (Mas eles me pediam informação mesmo assim, vai entender.)

Àquela altura, felizmente, com quem eu iria morar não era mais novidade para mim. Eles já eram meus amigos e foi com essa ideia aquecendo o coração que eu fui recebida. Falei para a Soff, a mexicana que conheci ainda no aeroporto, que estávamos perdidos e dei alguns pontos de referências, daí apareceu ela e o Lívio, um brasileiro que conheci no Museo Casa de la Memoria e virou meu amigo de infância, algumas esquinas depois acenando e dançando na rua para chamar a nossa atenção, na maior felicidade. Bastou isso para o sorriso crescer e eu me sentir ansiosa, e não mais receosa.

Ali moravam a Júlia e a Jullie, duas brasileiras lindas que fizeram parte da viagem que eu fizera alguns dias antes, a Dani, uma garota da Costa Rica que eu estava conhecendo agora, o Lívio e a Soff, que já dispensam apresentações. Éramos só nós, alguns pacotes de macarrão e temperos de carbonara.

No primeiro dia, já parecia que eu estava ali há séculos. Jogamos cartas, escutamos músicas, dançamos e tomamos hatsu. O que há mais para se querer da vida? Só depois fui sentindo falta de coisas que antes me passavam despercebidas, como alguns produtos de limpeza, comidas e o aprendizado colombiano diário. Ainda havia o fato de que em Bello o wi-fi funcionava quando queria e não tínhamos água quente num clima que beirava menos de 15º às vezes. (Lá vai eu com duas panelas de água fervida para o banho.) O apartamento também ficava um pouco longe do metro. Para descer e chegar lá, todo santo ajuda, como dizem por aí, mas para subir, não há pernas que aguentem. E que comece minha temporada de volta aos ônibus convencionais. Estava tão bonzinho só pegando o metro que eu já não sabia o que era me perder.

Todos esses fatores somados à reta final da viagem, quando eu estava mais apertada financeiramente, não foram tão legais, mas eis aqui o fator que fez a diferença tanto quanto no Poblado: as pessoas. Se lá, elas poderiam ter tornado o ambiente perfeito em inóspito. Aqui, elas poderiam ter me afundado ainda mais nos fatores negativos, mas eu tive a tremenda sorte de conviver com as melhores pessoas. Elas transformavam tudo que a gente enfrentava em algo divertido, desde compras no mercado até longas caminhadas e jantares meia boca baseados em pão e massa todos os dias. Nós dividíamos a limpeza e nosso tempo juntos. Se havia mais de uma pessoa por ali, havia conversa e sorrisos.

Que saudade enorme de todas as pessoas citadas nesse post! Ainda adotamos a por algumas noites, minha parceira de aventuras por mais de quinze dias, da qual vocês ainda vão ouvir falar muito.

Por isso, acho que não tem muito cabimento comparar os dois lugares em que eu vivi elegendo o melhor e o pior ou qual seria a melhor opção para um intercambista escolher, se ambos foram tão maravilhosos para mim. Em um eu fui filha, colombiana, aluna e professora também. Em outra eu fui dona de casa, mais brasileira do que nunca, convivendo com pessoas de várias partes do meu país, e até um pouquinho mexicana. Como é que a gente tem tantas facetas desconhecidas? E eu só fico com vontade de descobrir mais delas. Quem faz o lugar são as pessoas, mas especialmente seu estado de espírito consigo mesmo e o quanto você está aberto para aquilo que é novo.

Esquecendo a comodidade do Poblado, aprendi muito em Bello sobre como virar e me diverti demais com meus colegas de apartamento, acho que ficava mais à vontade, mesmo sem muita privacidade. Quando batia saudade das pessoinhas que fizeram parte do meu dia a dia lá do outro lado da cidade, eu só precisava dar alguns passos até a janela, porque uma coisa seria sempre a mesma em qualquer lugar que eu me acomodasse: eu era uma grande expectadora das luzes da cidade. E não dava para ignorar o fato de que eu fazia parte daquilo sob o ângulo de qualquer outra pessoa que observasse de volta.

luzes da cidade à noite

Percebi isso enquanto olhava Medellín pela nossa janela do quinto andar, numa noite que parecia como outra qualquer. As pessoas deveriam estar ali, vivendo suas vidas como se nada estivesse diferente, enquanto quatro brasileiros e uma mexicana comiam brigadeiros, escutavam Liniker e dançavam na varanda.


 ~ • ~ 



Peguei até o que era mais normal de nós
e coube tudo na malinha de mão do meu coração ♪♡

Lis



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Escrito por: Lisete Reis


 

6 comentários:

  1. Que post mais gostoso de ler! Dá vontade até de embarcar em um intercâmbio tudo de novo pra ter essas experiências. Realmente, você teve duas experiências completamente diferentes em ambas acomodações, mas as duas foram boas do seu jeito, né? E que sorte a tua de poder ter esses dois lados da moeda, ter conhecido pessoas tão queridas, ter aprendido e ter ensinado.. E também, ter essa cabeça aberta para o novo. Intercâmbio e viagens é exatamente isso! <3
    Amando ler suas aventuras por Medellin cada vez mais!
    Beijos

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    Respostas
    1. E que comentário gostoso de ler! ♡ Muito obrigada, Taís!! É muito legal me sentir entendida. E simmm, tive muita sorte mesmo nesse intercâmbio, conheci muita gente, inclusive que estava lá comigo, que não se deu tão bem. Às vezes não tem como evitar o problema, mas pelo menos a forma de lidar com ele, né? Obrigada de novo e até mais! Beijos!

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  2. Que experiência incrível você teve, Lis! Adoro ler seus posts!

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    1. Que feliz saber disso, Ana! ♡ Obrigada mesmo!

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  3. Que baita experiência esse intercâmbio! Sou louca para conhecer Medellin e teu post só aumentou essa vontade. Fui pra Colômbia em novembro do ano passado, e visitei Cartagena. Me arrependo de não ter trocado por Medellin :( abraço!

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    1. Você esteve lá quase na mesma época que eu, então! Medellín é incrível, Poly. Cartagena tem uma beleza turística e foi muito especial pra mim também, mas meu lar colombiano fica longe das praias. Torço pra que você consiga conhecer! Obrigada pelo comentário e um abraço :)

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