13 de junho de 2017

Preparação, ideias, decepções e soluções | Projeto Merry Christmas - Parte I

porta verde

Hoje é dia de começar a falar deles. Dos pequenos seres humaninhos que tornaram minha experiência mais feliz. ♡ 

Se você não faz ideia do que eu estou falando, talvez seja melhor dar uma olhada nesses posts antes de continuar:
Se você já os leu, não deve ser novidade que eu escolhi trabalhar com crianças no intercâmbio que fiz em Medellín. O primeiro link está cheio de coisinhas que comprei para levar para eles (menos a cachaça, leiam as letrinhas miúdas!) e sobre algumas expectativas que eu tinha, mas agora chegou a hora de desconstruí-las e mostrar como tudo aconteceu na realidade. 

Quando eu decidi para onde eu iria, eu estava bem feliz com a minha escolha. Fiz a entrevista com a segurança de quem havia pesquisado um milhão de coisas sobre a cidade, mas: ainda nada sobre o projeto. A verdade é que não havia muito para pesquisar, a descrição no opportunitties era bem simples e dizia apenas que deveríamos promover a multiculturalidade, fazer atividades relacionadas aos nossos países, entre outras coisas bem vagas. Caberia a nós pensar e colocar em prática que atividades seriam essas e de que forma nós iríamos apresentar nossas culturas.

Isso foi algo que estava me deixando muito inquieta, porque todo o objetivo da viagem se baseava nisso e eu não queria chegar lá para apenas me arrastar até o local de trabalho. Eu queria fazer o que eu fui ali para fazer, mesmo que ainda não fizesse ideia de como. Claro que o aprendizado que eu teria com as pessoas e a cultura colombiana, além das viagens que eu planejava fazer, eram importantes também, mas eu estava saindo do meu país comprometida com uma organização e não fazia sentido para mim fingir que isso não era nada de mais.

A semanas de viajar, tínhamos esse enorme grupo no whats app com todas as pessoas que iriam participar do projeto. Eram cerca de trinta pessoas falando dialetos diferentes do espanhol, português, inglês, enviando fotos, compartilhando coisas sobre si mesmas e discutindo o projeto, mas a ansiedade era quase palpável e ninguém chegava a falar nada muito concreto, tudo se baseava na expectativa de se conhecer, começar a trabalhar e viajar o mais breve possível. 

Tive esperança que o grupo de brasileiros no meio desse pessoal todo - já bastante grande na época - fosse animar alguma ideia legal. Nos demos bem de cara, sem nem nos conhecermos! Mas qualquer coisa que pudéssemos inventar foi por água abaixo quando descobrimos que fomos todos designados a trabalhar em fundações diferentes. Quando vi, estava eu e outros quatro mexicanos num grupo menor do whats app. Eles todos combinando coisas para levar, o que poderiam fazer, e eu ali, pensando o que diabos estava fazendo no meio daquelas pessoas. Até perguntei para a presidente do projeto: tem alguma coisa errada nisso, não? Mas ela disse que não, que eles analisaram nossos perfis e imaginaram que trabalharíamos maravilhosamente juntos. Porque ela achou que uma pessoa relativamente tímida com um espanhol meia boca ficaria bem num grupo de mexicanos, eu não sabia (apesar de ter descoberto depois ♡), mas lá fui eu afundar na má expectativa de estar sozinha para apresentar meu país.


Escrito por: Lisete Reis


 
7 de junho de 2017

Moeda colombiana, custo de vida e casas de câmbio em Medellín

cédulas e moedas da colômbia

Antes de eu viajar, em novembro do ano passado, eu olhava o preço do dólar quase todos os dias. Havia um controvérsia entre os viajantes de que seria bom, além de levar reais, levar dólares para trocar na Colômbia pela moeda local, os pesos colombianos. Mas mesmo que não fosse, o cartão Travel Money (com a bandeira da Visa), que independe de conta corrente, só aceitaria dólares mesmo, então era bom que o preço estivesse bem baixinho quando eu depositasse aqui e bem alto quando eu fosse gastar por lá. O que claramente não aconteceu.

Ainda lembro de toda a repercussão na época por causa das eleições dos Estados Unidos entre a Hilary Clinton e o Donald Trump. Eu estava completamente perdida e não sabia se esperava o resultado ou não. Ia ser o meu fim apostar na escolha errada e acabou sendo mesmo. Além da taxa de 6% cobrada pelo cartão - que eu acho um absurdo - ainda pagaria caro pela conversão após a vitória do Trump. Lástima dupla.


o que levar 

cédulas e moedas da colômbia

Por toda essa situação, acabei não levando dólares em dinheiro, no máximo um montante que minha mãe resolveu me presentear de última hora. Levei a maioria do dinheiro em reais mesmo e essa seria a minha recomendação, além do cartão de sua escolha, seja de crédito internacional ou Travel Money. Mas melhor seria ter os dois! Acabei levando o de crédito para emergências e no Travel Money depositei a quantia que eu gostaria de gastar, para ao menos tentar me basear naquilo ali.

Como a moeda colombiana não é muito requisitada no Brasil, muitas casas de câmbio aqui nem oferecem esse serviço e quando oferecem, o fazem por um preço que não vale a pena, então o melhor mesmo é esperar chegar na Colômbia.


entenda a moeda colombiana

moedas da colômbia


Não é tão difícil calcular os gastos na Colômbia. Como vocês podem perceber, os pesos se assemelham muito à nossa moeda! O valor de equivalência é que muda um pouco, mas é simples de entender. Vamos lá:


R$ 1,00 (um real) seria igual a quase 1000 COP (mil pesos colombianos)

Portanto, o que temos que fazer para converter a moeda colombiana é basicamente cortar alguns zeros e, a partir do número que restar, pensar sempre um pouquinho para mais, para chegar ao seu valor em reais e assim ter uma ideia do quanto estamos gastando na prática.

(Vocês podem chegar o câmbio atualizado aqui.)


onde trocar ou sacar dinheiro em Medellín

panfleto de casa de câmbio em medellín

Na época que eu viajei, os sites de câmbio diziam que o real valia 900 COP, o que embasava minha técnica de logo mais acima, então lá fui eu, feliz da vida, achando que ia ficar riquíssima e que seria super fácil fazer as contas dos meus gastos. Agora imaginem minha cara de fracasso chegando no Aeroporto José María Córdova e indo direto para sua casa de câmbio para ver que o real estava correspondendo a uns 600 COP e somente isso.

O pior foi que nem pensei em guardar um pouco do dinheiro para tentar trocar depois. Fiquei com medo de fazer isso e não encontrar outro lugar para fazê-lo. Mas que burrada! Porque consegui sim encontrar uma casa de câmbio que trocava o real pelos 900 COP que eu esperava, só que eu não tinha mais nenhum real.

Por isso, guardem: o nome da pior casa de câmbio que eu poderia ter confiado em Medellín é Globo Cambio. Eles ainda me deram um desconto para a próxima troca, mas depois de me assaltarem indiretamente, isso soa até como uma afronta.

panfleto de casa de câmbio em medellín

Por outro lado, a casa de câmbio que eu mencionei ter encontrado depois, Surcambios Dolares Medellín, tinha o melhor custo-benefício da cidade e ela sim eu recomendo. Foi indicação da Maria e da sua mãe quando ouviram toda minha saga pavorosa no aeroporto. Depois de ter quebrado a cara, eu conseguira fazer um bom negócio ao menos com os poucos dólares que eu tinha. Ela ficava praticamente na esquina da nossa casa (talvez após uma boa caminhada) - o que é consequentemente próximo ao metro Aguacatala - numa galeria na fronteira entre Medellín e Envigado, o Mall La Frontera.

Não sei se a Surcambios está com essa moral toda hoje em dia, mas olha, fui bem feliz nesse lugar. Uma amiga que estava trocando dinheiro num shopping perto da estação Industriales por um preço bem mais ou menos, entre a minha média péssima do aeroporto e a média maravilhosa que descobri no Poblado, também quis correr para lá quando eu contei. Pode parecer pequena a diferença, mas vê se a falta não faz um buraco negro no nosso orçamento.

Para checar seus preços de câmbio hoje: surcambios.com 

O shopping que a minha amiga ia era o Centro Comercial Premium Plaza. Quando eu me mudei para Bello, me tornei a pessoa mais econômica do mundo, porque foi quando eu tinha acabado de voltar de uma viagem por outras cidades da Colômbia, mas não teve jeito. No dia anterior ao meu voo para o Brasil, eu não tinha dinheiro nem para o ônibus. Tive que pegar meus últimos vinte dólares de emergência para trocar. Como a casa de câmbio maravilhosa estava lá do outro lado da cidade agora e eu não morava mais com a família da Maria, na correria que seria aquele meu último dia, resolvi ir para o tal shopping. O caminho do metro até lá é curto (atenção! passem direto pelo shopping fake logo em frente ao metro e andem mais um pouquinho) e o lugar prometia duas casas de câmbio, mas eu só achei uma e depois de MUITO procurar. Aquilo ali só podia ser um labirinto disfarçado. O preço estava abaixo do que eu havia conseguido antes, mas funciona bem para emergências.

~ • ~


Acabei só conhecendo essas três casas de câmbio, então encerro aqui minhas recomendações. Só não troque nunca no aeroporto. (Por mais que o atendente seja charmoso.) Quando viajei para outras cidades, já estava com o dinheiro que troquei em Medellín, então não sei se elas tem uma cotação melhor ou pior. Vale a pena pesquisar.

Lembrando que em todos esses lugares é necessário apresentar o passaporte e preencher algumas informações para conseguir efetuar a troca. Para sacar dinheiro no cartão, é só procurar as cores colombianas - amarelo, azul e vermelho - num caixa eletrônico do BanColombia (ou qualquer outro que aceite a bandeira do seu cartão). Você põe o valor em pesos colombianos e o cartão desconta os dólares pela cotação do dia, o que pode ser lindo ou trágico. A sorte será lançada. 

No caso de você precisar usar o cartão de crédito, ele transformará o valor das compras baseado na cotação do dia e a fatura chegará em reais no fim do mês, mas, enquanto isso, a pessoa receberá o valor das compras em pesos colombianos no celular - caso haja algum vínculo com o cartão. Prova disso é a minha mãe pirando com as mensagens de compra que chegavam.

- FILHA, VOCÊ GASTOU SETE MIL REAIS? - perguntava ela, e eu, morrendo de rir, respondia:
- Calma, mãe, mal foram sete reais.


custo de vida colombiano para brasileiros

moedas da colômbia
meu globinho tem países sim, eles só são tímidos para fotos ok? ok ♡

A maioria das coisas relacionadas ao custo de vida vocês poderão perceber ao longo de alguns guias informativos que eu vou escrever por aqui, como aquele sobre o transporte, e até por diários de viagens mesmo, mas a conclusão é só uma: viver na Colômbia é mais barato que viver no Brasil. Pelo menos para quem está viajando com a moeda brasileira ou com dólares.

Eu não sei quanto é a média de um salário no país, então algumas coisas podem não parecer tão baratas assim para os colombianos, mas não há dúvidas quanto a isso para a gente. Em que parte do Brasil você vai de uma ponta a outra da cidade por menos de dois reais em transporte público, come entradas, prato principal, bebida e sobremesa por menos de vinte reais e pega um táxi tarde da noite por menos de vinte e cinco reais para atravessar duas cidades diferentes?

Em Medellín, eu conseguia perceber algumas variâncias dependendo de que parte da cidade eu estava. Senti isso especialmente quando me mudei do Poblado para Bello. No primeiro, tudo era mais caro e mal haviam supermercados e estabelecimentos em que eu pudesse chegar caminhando porque se tratava de uma parte mais rica, já no segundo, haviam opções mais acessíveis e com preços melhores. Na esquina do nosso apartamento em Bello mesmo haviam várias lojinhas pequenas, mas com tudo que era necessário para viver e por preços muito bons, além de uma padaria em que tomávamos café da manhã todos os dias. Era simples, claro, mas gostosa e vendia um croissant maior que a palma da minha mão custando o equivalente a um real e cinquenta centavos!

A refeição completa a que me referi anteriormente por menos de vinte reais foi em Bogotá, que é capital da Colômbia, então vocês podem perceber que o que tenho falado não se refere somente à Medellín. No litoral, bastante turístico pelo Mar do Caribe, visitei algumas cidades, como Santa Marta e Cartagena de Índias, além da ilha San Andrés, e aí sim notei que a situação muda um pouco, mas isso acontece justamente pelo turismo. O país em si tem um ótimo custo de vida.

~ ~


E aí? Se animou para viajar para lá? É uma viagem que dá para fazer com pouco dinheiro, especialmente se você conseguir uma promoção nas passagens! Qualquer dúvida, tentarei ajudar como puder. 


Escrito por: Lisete Reis


 
4 de junho de 2017

5 músicas nacionais (que não deveriam ser) desconhecidas - parte II


Hoje acordei com saudades de escrever sobre músicas. Já faz um tempo, né?

Nunca fui boa com nenhum instrumento, muito menos cantando ou compondo, mas se tem uma coisa que eu faço é ouvir. Descobrir músicas que me encantem, especialmente porque os gêneros que eu gosto são bastante desvalorizados, é uma pequena felicidade que sempre me anima em dias ordinários e eu venho fazendo muito isso. 

Para quem gosta de músicas em espanhol, mas não conhece muito, tenho sugestões para vocês em breve, só que agora vou retomar o que comecei há mais de um ano atrás e divulgar algumas outras músicas nacionais que merecem ser ouvidas, não só porque acho que elas são maravilhosas, apesar de elas serem mesmo mas porque elas podem fazer o seu dia mais feliz.

Para ler o primeiro post, é só clicar aqui.


Terminei indo - A banda mais bonita da cidade

eu troco a roupa, eu tomo um café
me sento sempre na janela
e a minha casa é pra onde vão meus pés 



Que sentimento bom me dá escutar essa música, ela me lembra viagens e sonhos. O clipe ainda cria toda uma atmosfera que reforça essa ideia, foi gravado em Portugal. ♡

Essa é a minha preferida da banda, mas eles ficaram conhecidos pela música Oração, quem lembra?


Antes que eu morra - Sinara

♪ mas percebo que ser só
é tão sozinho



Não consigo parar de escutar essa música. De verdade, alguém me ajuda! Amo e odeio ficar viciada, viu?  Mas olha as vibes. Não dá para ficar alheia, essa banda me conquistou. (Inclusive, ela já já aparece aqui de novo.)



Envelhecer com você - Lorena Chaves


♪ ver o céu se abrir ou diluir em chuva
e na calmaria me aconchegar



A Lorena sempre vai me trazer lembranças muito boas, porque escutei seu CD completo pela primeira vez numa viagem de Santa Marta até Cartagena de Índias. Ela foi minha trilha sonora naquele momento e continuou assim um bom tempo depois. ♡ Gosto muito dessa música em especial, mas vale a pena buscar mais!


Vai, menina - Ana Larousse

♪ vai, menina
veste o peito de coragem
corra, não perca a viagem



Essa música me deixa emocionada, com pelinhos arrepiados, etc. A letra dela é muito forte e a Ana fez um clipe à altura, que inclusive tem uma censura, por isso não o coloquei no blog. Mas se você tem mais de 18 anos, clica aqui para conferir. 

Ela também me deixa triste, mas ao mesmo tempo forte, não sei se dá para entender. Eu só sinto que a entendo tão bem que me dá um apertinho no coração.


Sem ar - Sinara

me leva pra o seu mundo mais real
nada disso do que sei é
nada daquilo que foi será igual 



Mais uma da banda Sinara! Antes que eu morra é a que mais tenho escutado ultimamente, mas Sem ar foi a que me fez descobrir a banda e eu já tive minha fase de vício eterno por ela, ainda mais depois que vi esse clipe por motivos de: maravilhoso. ♡ Se vale a pena que o mundo conheça? Demais.

E essa música ainda tem recomendação dupla, viu? Enquanto organizava esse post, a Jenny já apareceu serelepe falando que estava escutando ela na mesma horinha. (Da série: nossas bruxarias.)

• ~


O que vocês acharam? Alguma preferida?
Já tenho ideias para mais continuações disso aqui! ♡ 

Lis


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Escrito por: Lisete Reis
Arquivado em


 
31 de maio de 2017

Do Poblado a Bello: onde eu vivi em Medellín

Janela com gotas de chuva

A poucas semanas de decolar, uma pequena pendência me incomodava um pouco: eu não tinha onde dormir em Medellín. Minha mãe estava mais inquieta com isso, sem querer que eu chegasse num país desconhecido sem rumo certo, mas de tudo que poderia acontecer essa nem era a pior hipótese. Na rua eu não ficaria, né? Fui logo pesquisando alguns hostels para o caso de o pessoal da AIESEC me deixar na mão, só que, felizmente, isso nunca aconteceu. Eles foram as pessoas mais queridas do mundo até escolhendo a família com quem eu ficaria, mesmo demorando um pouquinho. O único porém foi que essa família só estaria disponível até o meio de dezembro, porque depois ela viajaria e eu precisaria ir para outro lugar – só Deus sabia onde.

De início, eu fiquei relutante e apreensiva, me apeguei muito rápido à eles, mas essa mudança forçada me fez passar por duas situações completamente diferentes, mas igualmente maravilhosas e importantes para a minha experiência: a de morar com uma família colombiana, em um dos bairros mais ricos da cidade, e a de morar com intercambistas de várias partes do Brasil e do mundo, num bairro que nem em Medellín ficava. 

Esses dois lados da moeda duraram por quase o mesmo período de tempo e eu tive alguns choques de realidade, mas sou grata até pelas dificuldades, que me deram algum senso de responsabilidade em meio à relativa mordomia que eu tive antes. Ainda assim, a verdade é que elas foram facilmente superadas pelas risadas e coreografias no meio das madrugadas! Eu amei ter feito parte dessas duas famílias, mesmo essa última super improvisada, por motivos muito diferentes e é sobre isso que eu vou falar hoje.

quadro com barquinhos

Quando a Maria del Mar (sim, os barquinhos são por isso! ) entrou em contato comigo dizendo que eu ficaria na casa dela, respirei aliviada, porque de todos os lugares que eles poderiam me colocar, entre tantos tipos de família, eu iria ficar justamente com a de uma menina que me pareceu tranquila, disposta a ajudar, e que tinha muita coisa em comum comigo, desde o estudo do italiano ao interesse por design gráfico, escrita e viagens. Ela tinha acabado de voltar da Rússia, onde fez seu intercâmbio também pela AIESEC, além disso, seu irmão e seu namorado falavam português e tinham o maior interesse pelo Brasil.

Em que outra família de Medellín eu teria isso, eu não sei.

Meus pais também ficaram aliviados, especialmente quando ela nos disse seu endereço e vimos que seu apartamento ficava no Poblado, um dos bairros mais bem vistos da cidade, perto dos restaurantes e bares mais badalados. (Ok, dessa última parte eles não gostaram muito, não.) Então já viajei sabendo que estaria bem localizada, numa vizinhança relativamente segura e com uma família estruturada. Nós conversamos por toda a semana que antecedeu a viagem e isso me deixou mais calma para encontrá-los, mas eu tive meus momentos de paranoia e o caminho do aeroporto até o apartamento foi um deles. A mudança de sentimentos foi cômica e trágica. Num instante, eu estava animada e sorridente por estar em Medellín e em outro, quando ouvi que estávamos perto de onde eu ficaria, meu estômago já foi logo se revirando.

Eu não me sinto bem nem na casa de alguns parentes, rodeada da minha família mais próxima, imagina na casa de pessoas que eu nunca vi, sozinha. Isso foi algo que a minha mãe começou a me lembrar quando eu tomei a decisão de fazer o intercâmbio, para me persuadir a mudar de ideia, e eu a respondia contrariada com a falta de incentivo, mas foi lembrando disso que meu coração bateu ainda mais apreensivo durante o trajeto de dezesseis andares que fizemos para chegar ao 1601, porque minha mente me prega esse tipo de peça.

A presidente da AIESEC em Medellín da época me acompanhou. Eu precisei mostrar algum controle e fingir que estava escutando - e entendendo - o que ela estava falando. Quando a porta se abriu e a mãe da Maria, a Dona Angela, apareceu na maior simplicidade, arrastando com os pés alguns sacos enormes de brinquedos para passarmos, eu ainda estava meio tensa. A garota ficou tempo suficiente para nos apresentarmos e só. Adeus para mim e agora te vira, quase pude escutar seu pensamento. Eu juro que, de todas as situações que eu passei depois, aquele dia pareceu ser o ápice da minha falta de habilidade com o espanhol, mas se superamos aquilo, nada poderia derrubar nossa comunicação. A gente fazia mímicas, repetia palavras e dávamos risada de nós mesmas. Almoçamos juntas e, apesar de suas recomendações para que eu descansasse, ainda a ajudei a separar alguns dos brinquedos que ela iria doar e conversamos um pouco sobre Medellín, ela sempre muito simpática e compreensiva.

Para minha surpresa, depois de um tempo, eu já não me sentia na casa de estranhos. Tudo ainda era novidade e vergonha, mas não de um jeito incômodo. E eu acredito que ela já não deveria me considerar uma estranha também, porque naquela mesma tarde, estava eu sozinha no apartamento, livre para fazer o que eu quisesse, com a chave de casa embaixo do tapete.

Aprendi rapidamente que aquela família era uma das mais tranquilas do mundo. Cada um de bem com a vida, resolviam seus problemas e mal paravam em casa, mas quando paravam, gostavam de estar juntos e conversar. Conheci a Maria, seu irmão e seu namorado mais tarde naquele dia e me senti tão bem com todos que estranhei o que estava acontecendo. Ela me contou histórias do seu intercâmbio, trocamos ideias de músicas e, alguns momentos depois, ela já estava me oferecendo seus esmaltes, bem assim mesmo. O Esteban, seu irmão, se brincar, falava português melhor do que eu mesma! Ou pelo menos não dava bandeira de ser colombiano quando conversava comigo. O Santiago, seu namorado, já tinha uma fala mais engraçada, de quem está aprendendo, mas era muito divertido e me ensinava bastante do espanhol. Me apaguei a ele como a um irmão mais velho, do tipo que a gente zoa sempre, mas por quem também somos zoados, não é mesmo?

Esse foi, basicamente, o núcleo familiar com que convivi primeiro, no Poblado. Impossível falar dos locais por onde passei sem relacioná-los as pessoas que eu convivi, já que elas influenciam a forma com que eu me senti. Foi através dessas pessoas que eu fui convidada a minha primeira festa para comemorar a chegada de dezembro, uma novena natalina (ainda que só tenha chegado no finalzinho), uma entrevista (bem constrangedora), provei comidas típicas locais e aprendi muito sobre a Colômbia e o espanhol colombiano. 

Só essas coisas para mim já valeram o mundo. Claro que também tive vantagens práticas ao morar com eles, como o chuveiro quentinho, a proximidade ao metro, privacidade, comodidade e economia com comida e limpeza, já que eles sempre me ofereciam e tinham alguém para organizar o apartamento, sem falar na segurança. Mas isso tudo não valeria de nada se eles fossem pessoas de difícil convivência ou que me deixassem desconfortáveis. A primeira metade da minha viagem passou rápido e eu consegui aproveitar o que eles podiam me oferecer e ainda deixar o gostinho do Brasil com eles. Ao menos, gosto de pensar assim.

A segunda metade já foi mais tumultuada. A família adiou sua viagem, mas eu viajei no final de dezembro pela Colômbia e quando voltei para Medellín já era hora de me despedir de verdade. Só voltei para a casa da Maria basicamente para derramar algumas lágrimas e pegar a minha mala. Próxima parada: Bello. Eu estaria indo para um apartamento que alguns intercambistas estavam desde o primeiro dia. Mas onde é que ficava Bello mesmo?

paisagem com montanhas e prédios
Eu nem sabia que Bello não era mais Medellín, para mim era só mais um nome de estação do metro, então imaginem meu pânico quando levamos mais de uma hora para atravessar a cidade de carro no trânsito do fim da tarde. Estávamos eu, uma menina da AIESEC e seu namorado dando voltas e voltas nos quarteirões do bairro Cabañitas atrás do local correto. Descíamos ladeiras, subíamos ladeiras e nada. Onde diabos ficava aquele apartamento que eles mesmos alugarem nem eles sabiam. E imagina euzinha. (Mas eles me pediam informação mesmo assim, vai entender.)

Àquela altura, felizmente, com quem eu iria morar não era mais novidade para mim. Eles já eram meus amigos e foi com essa ideia aquecendo o coração que eu fui recebida. Falei para a Soff, a mexicana que conheci ainda no aeroporto, que estávamos perdidos e dei alguns pontos de referências, daí apareceu ela e o Lívio, um brasileiro que conheci no Museo Casa de la Memoria e virou meu amigo de infância, algumas esquinas depois acenando e dançando na rua para chamar a nossa atenção, na maior felicidade. Bastou isso para o sorriso crescer e eu me sentir ansiosa, e não mais receosa.

Ali moravam a Júlia e a Jullie, duas brasileiras lindas que fizeram parte da viagem que eu fizera alguns dias antes, a Dani, uma garota da Costa Rica que eu estava conhecendo agora, o Lívio e a Soff, que já dispensam apresentações. Éramos só nós, alguns pacotes de macarrão e temperos de carbonara.

No primeiro dia, já parecia que eu estava ali há séculos. Jogamos cartas, escutamos músicas, dançamos e tomamos hatsu. O que há mais para se querer da vida? Só depois fui sentindo falta de coisas que antes me passavam despercebidas, como alguns produtos de limpeza, comidas e o aprendizado colombiano diário. Ainda havia o fato de que em Bello o wi-fi funcionava quando queria e não tínhamos água quente num clima que beirava menos de 15º às vezes. (Lá vai eu com duas panelas de água fervida para o banho.) O apartamento também ficava um pouco longe do metro. Para descer e chegar lá, todo santo ajuda, como dizem por aí, mas para subir, não há pernas que aguentem. E que comece minha temporada de volta aos ônibus convencionais. Estava tão bonzinho só pegando o metro que eu já não sabia o que era me perder.

Todos esses fatores somados à reta final da viagem, quando eu estava mais apertada financeiramente, não foram tão legais, mas eis aqui o fator que fez a diferença tanto quanto no Poblado: as pessoas. Se lá, elas poderiam ter tornado o ambiente perfeito em inóspito. Aqui, elas poderiam ter me afundado ainda mais nos fatores negativos, mas eu tive a tremenda sorte de conviver com as melhores pessoas. Elas transformavam tudo que a gente enfrentava em algo divertido, desde compras no mercado até longas caminhadas e jantares meia boca baseados em pão e massa todos os dias. Nós dividíamos a limpeza e nosso tempo juntos. Se havia mais de uma pessoa por ali, havia conversa e sorrisos.

Que saudade enorme de todas as pessoas citadas nesse post! Ainda adotamos a por algumas noites, minha parceira de aventuras por mais de quinze dias, da qual vocês ainda vão ouvir falar muito.

Por isso, acho que não tem muito cabimento comparar os dois lugares em que eu vivi elegendo o melhor e o pior ou qual seria a melhor opção para um intercambista escolher, se ambos foram tão maravilhosos para mim. Em um eu fui filha, colombiana, aluna e professora também. Em outra eu fui dona de casa, mais brasileira do que nunca, convivendo com pessoas de várias partes do meu país, e até um pouquinho mexicana. Como é que a gente tem tantas facetas desconhecidas? E eu só fico com vontade de descobrir mais delas. Quem faz o lugar são as pessoas, mas especialmente seu estado de espírito consigo mesmo e o quanto você está aberto para aquilo que é novo.

Esquecendo a comodidade do Poblado, aprendi muito em Bello sobre como virar e me diverti demais com meus colegas de apartamento, acho que ficava mais à vontade, mesmo sem muita privacidade. Quando batia saudade das pessoinhas que fizeram parte do meu dia a dia lá do outro lado da cidade, eu só precisava dar alguns passos até a janela, porque uma coisa seria sempre a mesma em qualquer lugar que eu me acomodasse: eu era uma grande expectadora das luzes da cidade. E não dava para ignorar o fato de que eu fazia parte daquilo sob o ângulo de qualquer outra pessoa que observasse de volta.

luzes da cidade à noite

Percebi isso enquanto olhava Medellín pela nossa janela do quinto andar, numa noite que parecia como outra qualquer. As pessoas deveriam estar ali, vivendo suas vidas como se nada estivesse diferente, enquanto quatro brasileiros e uma mexicana comiam brigadeiros, escutavam Liniker e dançavam na varanda.


 ~ • ~ 



Peguei até o que era mais normal de nós
e coube tudo na malinha de mão do meu coração ♪♡

Lis



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Escrito por: Lisete Reis


 
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