24 de outubro de 2017

Parque arví: zona verde a um metro cable de distância

Parque Arví, Medellín • COL

Eu amo o fato de ter conseguido visitar alguns lugares especiais mais de uma vez, em circunstâncias completamente diferentes, e o parque arví foi mais um deles. Ainda assim, ele faz parte de uma reserva tão grande que eu acho que nem assim fui capaz de dar conta de sua extensão e descobrir cada pedacinho seu, mesmo que o segundo dia tenha me deixado com uma sensação de dever cumprido mais sólida.

Para que fique claro, ele não é um parque qualquer no meio da cidade. O parque arví fica relativamente afastado de tudo, numa reserva mais alta onde você precisa ir ao extremo norte de Medellín e utilizar, ao menos, dois metro cables diferentes. Um deles funciona por conta do sistema de integração de transporte público, o outro, que leva as pessoas diretamente ao parque, cobra um valor a mais, como uma espécie de entrada disfarçada, já que ele só funciona em razão do parque e sua entrada seria supostamente grátis. Apesar disso, o valor é simbólico, de cerca de 4.000 COP, se não me engano. Também dá para chegar lá de carro, mas é algo pouco viável, considerando que o transporte público funciona tão bem.

Parque Arví, Medellín • COL
+ Transporte em Medellín: como se mover na cidade e não se perder

O parque arví é conhecido por suas belas paisagens naturais e atividades aventureiras, de trilhas, esportes radicais e circuitos. Na primeira em que eu fui, estava com a Lê e com a Manu. Era a primeira vez que saíamos juntas e não fazíamos ideia do que nos aguardava, nós só sabíamos o básico sobre como chegar lá, então tudo se tornou uma surpresa e o passeio foi mais tranquilo.

A aventura começou ainda no caminho, dentro do metro cable. Nunca fui de ter medo de altura, mas acho que aqui se aplica a mesma traição que sinto quando estou num avião. Meu corpo não funciona em conjunto com a minha mente e eu fico levemente enjoada, ainda que me sinta bem com a situação. Um dia ainda quero entender essa loucura. Para piorar, as paisagens que deixávamos para trás iam tornando a cidade ainda menor aos nossos pés e a neblina começava a cobrir qualquer sinal de que aquele cabo nos movendo estava conectado a qualquer tipo de terra firme. Passei o caminho meio tonta, mas animada para a chegada.

Felizmente, descemos para lidar com várias barraquinhas de comidas típicas, como arepas doces, salgadas, obleas, buñuelos, palitos de queso, entre muitas outras coisas deliciosas. Só que elas estavam tão cheias de gente, ainda mais por se concentrarem na entrada do parque, que deixamos elas para lá e fomos atrás de informações úteis no balcão de informações turísticas.

As coisas eram um pouco dispersas por ali, nós basicamente pegamos um mapa e decidimos nos virar assim mesmo, o que se mostrou um pouco difícil, primeiro porque ninguém parecia querer se afastar da zona de comida - não os culpo, porém. Haviam poucas almas corajosas que andavam em direção à estrada que nos levaria a sabe deus onde e o pior é que nem havia uma calçada decente para ficarmos longe de qualquer carro ou ônibus que pudesse aparecer. Mesmo assim, fomos seguindo o fluxo de uns franceses que reconhecemos do balcão, mas eles andavam rápido demais e logo ficamos para trás.

Sozinhas, as três, no meio da estrada de um parque enorme.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL

Na maior parte do tempo, a gente pensou que não tinha como dar errado, era só seguir em frente, até que a gente se deparou com mais de uma rua a seguir e zero placas indicando o caminho. Por sorte e um pouco de cara de pau, perguntando a homens parcialmente bêbados num bar de beira de estrada no meio da manhã, achamos nossa primeira parada:o chorro clarín.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL

Nós estávamos sem entender porque o lugar estava tão vazio, mas considerando a distância e o tempo que levamos para chegar ali - acho que mais de trinta minutos - sua situação era até compreensível. Haviam mesas de madeiras enormes e alguns comerciantes, que nos olhavam esperançosamente em busca de vender suas frutas ou salgados. Até conversamos com alguns deles, mas fomos distraídas quando começamos a ouvir um barulho de água corrente e ficamos sabendo que lá havia uma cachoeira.

Seguimos o som até encontrar sua fonte e, nesse quesito, o parque é ainda mais desleixado, no estilo se vira aí, mas a gente se virou mesmo e a encontrou. Ficamos num lugar amorzinho perto dela, sentadas no chão comendo as laranjas-cravo que a mãe da Maria fizera questão de me entregar antes de sair de casa, já que eu saí apressada e não tinha tomado café da manhã.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL

Passamos algum tempo lá, mas haviam também algumas pontes coloridas em meio ao verde e marrom de sempre e aproveitamos para conhecer o que tinha ali por perto. O chato foi quando a fome foi batendo, a gente só pensava em como faria para voltar para a frente do parque. Não resistimos em comprar alguns salgados empanados que encontramos no meio do caminho para enrolar o estômago.

Só que enquanto estávamos comprando, um ônibus do parque passou por onde a gente estava - pela primeira vez! - e nós corremos desesperadas para pedir que ele parasse, por misericórdia, com saquinhos de empanados nas nossas mãos e tudo. Pagamos uma quantia pequena, creio que de menos de 2.000 COP, o que valeu totalmente a pena para evitar toda a caminhada de volta, ainda mais subindo algumas ladeiras. Era o que devíamos ter feito antes, não é mesmo? Mas agora já era tarde. E fora um passeio diferente ao ar livre, nós passamos um tempo muito bom assim mesmo.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL
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De volta a entrada principal, já no início da tarde, ficamos tentando entender o mapa do parque e decidir para onde podíamos ir no momento, mas isso é complicado quando você não faz ideia do que tem em cada lugar. Voltamos para o balcão de informações e uma mulher nos explicou que os lugares mais visitados são a comfama, uma rede de esportes radicais e circuitos naturais, e o piedras blancas, um lugar em que havia um mariposário, vista para um lago, entre outras coisinhas.

Considerando que o comfama era bem mais caro e não estávamos com roupas adequadas para fazer as atividades, optamos pela escolha mais tranquila, rumo ao piedras blancas. Dessa vez, devidamente dentro de um ônibus e não caminhando por aí como três malucas.

Parque Arví, Medellín • COL
Parque Arví, Medellín • COL

Mas aquele não era um ônibus qualquer. Era uma chiva! Foi minha primeira vez num dos transportes coloridos e dançantes de Medellín. Eu adorei as músicas e o fato de ele ser aberto nas laterais, para a gente se sentir mais conectado com as paisagens. O problema foi só quando estávamos perto de descer e começou a chover.

A chuva estava fina, mas nós já nos tremíamos de frio, num estado sofrível de bater os dentes mesmo. O clima da cidade é completamente instável e isso me deixava inquieta, porque você poderia estar suando num momento, depois completamente congelada em outro. Meus dedos estavam arroxeados e a gente se olhava sorrindo, mas de nervoso, loucas para arrumar um cantinho para se aquecer.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL

Precipitadamente, pagamos a entrada do piedras blancas, acho que custou uns 7.000 COP, mas depois nos arrependemos, porque naquela situação não iríamos conseguir nem entrar. Esperamos a chuva parar na bilheteria, mas vimos que não ia ter jeito e fomos andando quando ela foi ficando mais leve, passando por caminhos de barro, morrendo de medo de levar um queda, mas determinadas a ver alguma coisa daquele lugar e tomar algo quentinho. Depois de alguns obstáculos, conseguimos um copinho de café no fim da nossa caminhada que equivaleu a uma coca-cola no deserto, viu? Que alívio só de segurá-lo.

E, assim, de repente, a chuva parou, depois de toda a nossa saga. Não estávamos reclamando exatamente - ou talvez estivéssemos sim, mas só porque ela poderia ter parado antes. Ainda assim, o mariposário ficou fechado, porque as mariposas não saíam em tempos frios e nós voltamos numa outra chiva para a entrada principal perto das quatro da tarde, faltando apenas algumas horas para o parque fechar, o que nos fez parar nossas andanças por ali mesmo.

Parque Arví, Medellín • COL Parque Arví, Medellín • COL

Nosso dia por lá foi tumultuado pelo clima e nossa caminhada no início, mas a gente não perdeu a vontade de explorar e ficou na vontade de fazer mais coisas, além de voltar mais preparadas, com comidas para piquenique, toalhas e algo mais quentinho para vestir. O parque pode ser ainda mais legal se você souber como aproveitá-lo, o triste foi que justamente quando estávamos indo embora é que entendemos seu ritmo.

Os dias foram passando e novos lugares e atividades foram surgindo para fazermos, até que não tivemos mais tempo de voltar no parque, pelo menos não juntas. Na segunda vez em que estive lá, minha companhia foi um colombiano especial que conheci no início da viagem. Saímos juntos algumas vezes e ele sempre tratava de pensar em me levar para fazer coisas que nem eu nem ele tínhamos feito antes, para que o momento se tornasse mais memorável de alguma forma.

Parque Arví, Medellín • COL

Nesse dia, a aventura da vez seria conhecer a comfama e fazer seu circuito radical, coisa que ele jurava ser a minha praia, por minhas ideias malucas de viajar o mundo. Mal sabia ele que as chances de eu cair lá de cima e ficar amarrada pelas cordas de segurança eram de 99%, considerando minha reputação em desastres. Sorte a minha que o 1% prevaleceu e conseguimos terminar o circuito tranquilamente, ou seja, muita tensão e pernas bambas depois.

Lá existem vários níveis de circuitos, que são montados e interligados entre as árvores. Quanto mais alto, mais difícil, mas há um treino bem baixinho antes de encarar o circuito em si e você pode escolher, com a ajuda de um especialista de lá, qual nível funciona melhor para você. Nós resolvemos fazer um que era intermediário, cheio de escaladas, caminhos com coisas que se mexiam e me deixavam morta de medo de pisar no lugar errado, tirolesa, entre outras coisinhas.

Tenho certeza que eu parecia estar plena por fora, brincando com o Julian sobre cada obstáculo. Mas por dentro? Orando a Deus que eu não ficasse pendurada por aquelas cordas. Percebam que meu medo nem tinha a ver com cair e me espatifar no chão, porque o equipamento de segurança me passava bastante confiança, ele só tinha a ver com passar vergonha mesmo, minha especialidade na vida.

Parque Arví, Medellín • COL

Ainda assim, foi uma programação muito divertida, uma das partes mais legais do parque para quem curtir esse tipo de desafio. Acabei não tirando nenhuma foto nesse dia, de tão envolvida que fiquei com as atividades, mas se vocês quiserem entender um pouco melhor como funciona, achei um vídeo no canal da comfama que faz o trabalho completo. É só clicar aqui, tem pouco mais de um minuto.

A empresa é bem organizada, os ônibus deles buscam as pessoas na entrada principal e as leva até lá, onde também há restaurantes e você pode se informar melhor sobre o que tem para fazer. Tem, inclusive, uma sala de cinema, ela só estava inundada quando fomos por conta de uma tempestade de gelo caindo lá fora, então não sei bem como ela funciona.

Eu mencionei que estava caindo gelo do céu? Ressaltando apenas para o caso de alguém não ter levado a sério o que eu disse sobre instabilidade climática. E o sol estava tão forte quando eu saí de casa que nem com casaco eu estava, imaginem.

Parque Arví, Medellín • COL

A volta para casa no metro cable foi assim em ambos os dias: extremamente nebulosa. Parecia que estávamos sendo engolidos por uma nuvem, porque em dado momento não enxergávamos mais nada ao nosso redor. Era assustador e angustiante, só que de uma forma muito legal também. Como se estivéssemos num mundinho alternativo. 

E ah! O custo para participar da rede comfama é de cerca de 20.000 COP. Você encararia esse desafio? Para ver mais fotos é só visitar meu flickr, algumas imagens desse lugar também estão no vídeo que eu fiz de Medellín logo mais abaixo.



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Escrito por: Lisete Reis


 
12 de outubro de 2017

O natal que é levado a sério: alumbrados navideños, día de las velitas e mais

Parque Explora, Medellín • COL

A maneira com que Medellín comemora o natal é uma das coisas mais bonitas e emocionantes de se ver e viver na cidade. Ter tido a chance de fazer parte disso no ano de 2016 foi o aspecto mais positivo de ter escolhido viajar em dezembro. Meus pais estranharam de início que eu fosse fazer o intercâmbio nessa época, mas acho que ela influenciou tanto na forma com que vivi certas experiências que não desejaria ter viajado em nenhum outro momento. Muito pelo contrário, eu recomendo que as pessoas conheçam Medellín pertinho do fim do ano e percebam a magia que ronda a cidade nesse período.

Para começar, eu fui recebida na casa em que fiquei durante as três primeiras semanas com decorações natalinas por todas as partes - até dentro do banheiro. A árvore de natal deles era tão alta que chegava até, praticamente, o teto da sala de estar, onde haviam pequenos presépios e objetos decembrinos meticulosamente colocados num centrinho de mesa.

Antes que vocês possam ter uma imagem errônea da realidade, atentem para o fato de que tudo me parecia de muito bom gosto, talvez apenas um pouco exagerado, mas entendi que poderia ser algo da família. Na minha casa mesmo, meus pais também aderiam a filosofia natalina dos panos de papai noel, plaquinhas de feliz natal! na porta de casa e qualquer outra coisa que minha mãe ache interessante pelas lojas aí afora.

Centro Comercial Oviedo, Medellín • COL

Só que no meu segundo dia na cidade, eu fui convidada para uma festa. Entendam, não se tratava de uma festa qualquer, era uma festa para comemorar a chegada de dezembro, e então eu comecei a perceber o quão maravilhosos e singulares eram os paisas.

A família da Maria, assim como o Santiago - seu namorado - se reuniu na casa de amigos para uma noite de músicas e comidas típicas. No começo, eu não podia estar mais envergonhada por invadir assim a privacidade deles, mas eles me acolheram tão bem que alguns instantes depois, eu fiquei muito feliz de não ter me encolhido num canto da casa da Maria quando eles disseram que já estavam indo. Aquela foi a primeira barreira que eu desconstruira em relação a minha timidez. 

Haviam poucas pessoas na casa, apenas minha família colombiana, as irmãs da Angela - mãe da Maria - que eu já conhecia, uma amiga, seu marido e seu filho, conversando sobre viagens e coisas que sempre me incluíam e me faziam sentir a vontade, mesmo que apenas ouvindo. O dono da casa era um senhor tão simpático, mas tão simpático, que eu ficava constrangida de recusar as milhares de comidas e bebidas que ele me oferecia, não demorei muito a provar cada coisinha disposta por ali. Para sua surpresa, umas frutinhas a quem ninguém estava dando muita bola e, infelizmente, das quais nem me lembro mais o nome, foram as minhas favoritas.

As outras pessoas também foram acolhedoras e eu sinto como se tivesse tido um momento especial com cada uma delas, como se elas tivessem feito de sua missão me deixar confortável e, surpreendentemente, conseguiram. Tanto que, em algum ponto madrugada adentro, o dono da casa me puxou para dançar e eu aceitei. Aprendi alguns ritmos típicos da região que eu não sei se teria conhecido de qualquer outra forma ou aceitado em qualquer outra ocasião. As mulheres se animaram para me ajudar também e essa se tornou uma das minhas lembranças mais felizes da viagem.

O Santiago, com seu português salvador da pátria, ainda fazia umas traduções simultâneas quando as conversas ficavam muito acaloradas e eu não entendia muita coisa. Sua habilidade com meu idioma materno só se voltou contra mim quando ele me pediu para cantar junto dele e de seu violão. Dei um enrolada, mas cantei, com vergonha e tudo, alguns trechinhos de os anjos cantam e de garota de ipanema, encantada por um momento com o fato de que havíamos trocado de lugar. Eles é que estavam curiosos com a minha cultura agora. Vivemos uma cambio incrível naquela noite.

Parque Norte, Medellín • COL

Talvez pareça insignificante, mas foi uma experiência atípica e inesquecível pra mim, ouvindo todos aqueles ritmos diferentes, conversas, provando comidas e frutas que eu nem conhecia, diante de toda aquela simpatia colombiana até às quatro da manhã, com pessoas que eu acabara de conhecer e já me tratavam como uma deles.

E só para constar: a casa das pessoas que nos receberam? Ainda mais decorada que a da Angela, especialmente porque eles tinham um ambiente que nenhum apartamento poderia ter: um jardim. Luzes por todos os lugares, era o que eu via. E as casas ao redor? Pareciam competir entre si, pelo o que eu podia ver nas fachadas. Era algo muito engraçado, eu juro. Voltei para o nosso apartamento com um sentimento bom no coração, de que fiz a escolha certa ao ter me permitido viver aquilo sem as amarras de sempre.

Parque Norte, Medellín • COL

No dia seguinte, mais uma novidade surpreendente: aquela seria a noite em que ligariam os alumbrados navideños da cidade, ou seja, luzes e enfeites de natal espalhados por toda Medellín, mas especialmente concentrados no parque norte, onde geralmente há jogos e brinquedos característicos de um parque de diversões, rodeados por um lago.

A Maria trabalhava com marketing e estava durante toda a noite da festa preocupada com o andamento desse evento, já que ele fora adiado por conta do acidente com os meninos da chapecoense, como ato de respeito e solidariedade, então me falou um pouco sobre ele. Fico até arrepiada de lembrar do momento em que ela me contou que isso nunca acontecera antes na história da cidade. Eles nunca adiaram o acendimento das luzes, era algo tão importante para eles que acontecia sempre no dia primeiro de dezembro, mas, excepcionalmente naquele ano, aconteceria apenas dois dias depois e ela precisava alinhar tudo para que as coisas acontecessem no tempo devido.

Parque Norte, Medellín • COL

Eu estava com a Soff nos arredores do parque norte na noite em que acontecera, nós acabávamos de sair do parque explora, onde passamos toda a tarde, mas não foi difícil encontrar o centro dos alumbradosBastava seguir as luzes. 

A decoração era orgulhosamente exagerada, mas achei muito legal o momento em que tudo se acendeu. Todo mundo parecia feliz e curioso para contornar todo o lago, onde elas iam mudando gradativamente e se espalhavam pelas extremidades mais distantes, com novos enfeites e estruturas iluminadas. A chuva nos castigou nesse dia, me impedindo de apreciar tudo direitinho, mas até a lástima que foi correr atrás de uma capa de chuva fez parte da experiência e eu acabei voltando lá muitas vezes. Pelo menos umas quatro, com pessoas diferentes e circunstâncias mais diversas ainda, além de grupo musicais que animavam a todos.

Em uma delas, a Maria pediu a mim e a Manu para prestarmos um depoimento em português mesmo sobre o que estávamos achando, para um vídeo promocional da cidade que a empresa em que ela trabalhava estaria fazendo. Não acabarei com a minha imagem expondo o vídeo aqui, mas foi mais do que divertido ver o Santiago procurar na multidão pessoas que aparentavam ser de fora e as abordar na maior cara de pau, perguntando suas opiniões sobre tudo, desde a comida de rua até as decorações de natal, enquanto um outro rapaz da equipe o filmava.
 
Parque Norte, Medellín • COL Parque Norte, Medellín • COL

Mas vocês não pensem que é tudo sobre imagem e aparências, o natal paisa também tem tudo a ver com fé e comprometimento com o bem, independente do que você acredita. A maioria das famílias que conheci participam de novenas, que funcionam como uma espécie de contagem regressiva para o natal, e comemoram o día de las velitas, uma noite reservada para que as pessoas acendam quantas velas forem possíveis em homenagem à virgem maria.

Nesse sete de dezembro, fui convidada para ir até a casa de uma outra família, a família da Laura, minha buddy. Ela foi uma menina designada pela AIESEC para me mostrar um pouquinho da cidade até que eu me adaptasse e ela mostrou mesmo. Não por pura obrigação, mas porque ela era genuinamente gentil e nos demos bem de cara. A noite na casa dela fora tão incrível quanto aquela com a família da Maria, talvez ainda mais, porque ficamos mais livres para andar pelo seu condomínio, conversar e se conhecer.

Além disso, a Laura tinha vários primos da nossa idade e nós passamos a noite com eles acendendo velas de diversas cores e pegando sua cera para criar uma enorme bola colorida, a qual ainda guardo de lembrança até hoje. Todos eles fizeram questão de me ajudar, como que para deixar sua marca comigo, e foram bem sucedidos. Parece até que vivi num universo paralelo, me conectando tão rápido a tantas pessoas!

O pai da Laura foi uma delas, inclusive, uma das mais amáveis e divertidas que eu conheci durante essa viagem, me ensinando a chamar seus irmãos pelos apelidos de infância, que incluíam expressões como mijão e baleia em espanhol, imaginem. Ele se despediu de mim perguntando se eu estava bem mesmo onde eu estava naquele momento e se eu não queria me mudar para a casa deles até o fim do intercâmbio.

Um día de las velitas em Envigado • COL

Gentileza. Bondade. Empatia. É sobre isso que é o natal paisa e eu sou muito grata a todos que viveram esses valores junto a mim, jamais teria aprendido tanto sozinha.

♡ 



Escrito por: Lisete Reis


 
27 de setembro de 2017

O Museo de Arte Moderno de Medellín e a lojinha mais maravilhosa da cidade

MAMM, Medellín • COL

Já não é segredo que o MAMM e sua lojinha do térreo, perto da entrada principal, são lugares que ganharam meu coração e foram verdadeiros achados inesperados durante minha estadia em Medellín. Falei um pouco sobre eles no post do parque lineal ciudad del río, localizado em frente ao museu, mas eles merecem uma atenção especial, considerando o tanto de coisa interessante que tem por lá.

A Manu estudava arquitetura, então estava especialmente interessada em conhecer o museu. Fomos juntas e ambas ficamos impressionadas com sua estrutura. São cinco andares de exposições, fixas e intinerantes, teatro, salas voltadas para temas específicos e um terraço que dá acesso a - mais uma - vista linda da cidade, além de bancos diferentões para você passar um tempo lendo um livro, escutando música ou só existindo mesmo, num lugar legal e privilegiado de Medellín.

MAMM, Medellín • COL MAMM, Medellín • COL
+ Transporte em Medellín: como se mover na cidade e não se perder

Para chegar lá, fomos andando da estação industriales. Não é exatamente perto, mas é um trajeto completamente possível de se fazer em cerca de quinze minutos. As primeiras coisas que avistamos foram as lojinhas do térreo na entrada principal e apesar de uma em específico ter ganho minha atenção, a outra não fica atrás no quesito beleza e fofura.

A diferença entre uma e outra é que, enquanto uma foca mais em objetos de decoração para casa, a outra oferece materiais de papelaria, camisetas personalizadas e itens pessoais, que acabaram me interessando mais. O nome da lojinha é la pequeña galeria e fez um rombo total de 80.000 COP no meu orçamento nesse dia. E eu ainda voltei algumas semanas depois, vocês acreditam? 

MAMM, Medellín • COL
Essa é a lojinha voltada para decoração de casa!

MAMM, Medellín • COL
E naquela portinha de fundo é que fica a la pequeña galeria. 

Quis levar metade da loja para mim e a outra metade para as pessoas especiais do meu convívio. Os preços são um pouco salgados, mas foi o único lugar em Medellín onde encontrei coisas realmente originais, com uma pitada de carinho em cada objeto, entre cartões postais, canecas, livros, acessórios e outros itens delicados e interessantes. Eu e Manu perdemos tanto tempo olhando cada coisa minuciosamente, com caras de bobas, que resolvemos não comprar nada de primeira, para pensarmos direitinho. Saímos em direção à entrada do museu, com a ideia de passar ali antes de ir embora, com mais calma, e foi o que fizemos. 

Talvez, apenas talvez, a gente tenha passado mais tempo ali que dentro do museu em si.

♡

Para ilustrar algumas das coisas que eu comprei, vou deixar algumas fotos registradas por aqui. Tenho quatro cartões postais no estilo desse das casitas, com pontos turísticos de Medellín e lembranças típicas de lá, que comprei com o objetivo de fazer quadrinhos. Até agora não me organizei para pendurá-los nem comprei nenhum moldura, mas tenho um apego especial por eles e quem sabe eu mostre o resultado futuramente. ♡

Comprei ainda uma caneca fofíssima, porque adquiri a mania maluca de trazer uma de lembrança de cada viagem, quando as vejo em alguma lojinha. Não é nada prático, né? Mas o resultado está sendo um armário cheio delas até agora e eu confesso que adoro escolher qual vou usar em cada dia. Elas me trazem lembranças maravilhosas e são itens que eu uso sempre.

♡

Comprei também um livrinho que foi o meu primeiro em espanhol. Ele é muito curto, mas tão lindo e mágico, que eu não resisti. Seu conteúdo foi produzido por escritores locais e conta com dicas de lugares esquecidos pelo moradores, diante da correria diária, mas importantes para a história da cidade e que valem uma visita. Se chama Rutas Secretas de Medellín e não poderia ser mais simbólico para mim nas minhas primeiras semanas por ali. O mais legal é que consegui visitar vários pontos que eles citam no livro e as informações que eles dão sobre cada lugar eu não descobriria de outra forma! ♡ Vocês poderão entender melhor quando eu falar do Museo Casa de la Memoria.

Além disso, sai de lá com muitos caderninhos lindos, de tons claros e simbólicos para pessoas especiais e para mim também. Eu adoro itens de papelaria e apesar de parecer exagero meu, estudar e escrever neles coisas aleatórias fez meu ano até agora, especialmente quando eu não estava muito animada, porque, mais uma vez: essas pequenas coisas evocam lembranças tão boas.

♡

Ainda no térreo, há uma pequena cafeteria aconchegante, mas fomos direto para a recepção falar com a atendente sobre como faríamos para ter acesso ao museu e ela foi super educada ao nos perguntar se tínhamos qualquer coisa que comprovasse que éramos estudantes. E ela reforçou: qualquer coisa mesmo, querendo nos ajudar a pagar menos. Uma fofa. Procuramos nossos comprovantes de matrícula no celular e ela aceitou prontamente, o que fez nossa entrada custar apenas 7.000 COP, com acesso a tudo que o museu podia oferecer.

MAMM, Medellín • COL
+ Moeda colombiana, custo de vida e casas de câmbio em Medellín

Ela ainda nos dera a dica maravilhosa de começar pelo último andar ao entrar no elevador, porque aí iríamos descendo em direção à saída e as exposições ficariam mais interessantes. 

Seguindo sua lógica, começamos pelo terraço do qual falei antes, que se mostrou a melhor maneira possível de iniciar esse tour. Passamos para as exposições mais empolgadas e inspiradas.

MAMM, Medellín • COL MAMM, Medellín • COL

As exposições em si variam bastante e um andar pode conter várias salas diferentes, abordando temáticas atuais como meio ambiente, miséria, arte abstrata e clássicos, seja em quadros ou esculturas.

Nunca fui muito conhecedora do meio, mas isso não me impediu de apreciar as obras assim mesmo, dando o significado que minha imaginação permitia. As críticas sociais foram as minhas preferidas, porque os sentimentos eram imediatos, de indignação e empatia.

MAMM, Medellín • COL MAMM, Medellín • COL MAMM, Medellín • COL
Lembrei da foto de quadrinhos que tirei em jampa! Alguém mais? Olha só. 
MAMM, Medellín • COL

De volta ao andar mais baixo, dessa vez dentro do museu mesmo, temos acesso a mais algumas salas de exposições, além de uma outra lojinha fofa, parecida com a que fica na entrada principal, mas bem menor, e uma livraria chamada al pie de la letra. Os valores são bastante altos ali, motivo pelo qual não levei nenhum livro, mesmo louca para adquirir vários em espanhol, mas aquele seria um desafio para outro momento.

MAMM, Medellín • COL

Fomos embora com a sensação boa de ter conhecido um dos lugares mais legais que visitamos até o momento. Se você tiver a chance, lembre-se de reservar uma manhã ou uma tarde inteira para aproveitar cada cantinho tranquilamente.

Ficar de olho na programação do teatro e do cinema de lá também pode ser uma boa pedida! Não tive a chance de voltar num outro dia, a não ser para passar rapidinho na lojinha, mas fiquei na vontade de ver alguns filmes que estavam em cartaz na época, seria um ambiente diferente para ter a experiência.

Ao sair do museu, você poderá recorrer ainda a um bancolombia próximo e lugares para comer. Além da cafeteria sobre a qual comentei antes, me lembro de uma subway, uma padaria enorme e um restaurante que deixou meu coração quentinho apenas passando na sua porta, porque ali soavam as vozes do Marcelo Camelo e da Mallu Magalhães, numa canção da banda do mar. 
MAMM, Medellín • COL

"pode ser o sol da tarde
e essas coisas que ele traz" 



Para mais fotinhos do MAMM, é só visitar meu flickr.


Carrera 44 #19A-100, Av. de las Vegas Ciudad del Río,
Medellín, Antioquia, Colômbia.


Escrito por: Lisete Reis


 
24 de setembro de 2017

Um Pueblito Paisa e três maneiras de subir o Cerro Nutibara

Pueblito Paisa, Medellín • COL

O pueblito paisa é uma das mais conhecidas e maravilhosas atrações turísticas de Medellín, parada obrigatória para quem passa pela cidade. Como o próprio nome sugere, ele é um pequeno povoado, mas totalmente fictício, que retrata através da arquitetura um pouco de como viviam os paisas antigamente – e ainda vivem, em alguns vilarejos.

Lembrando que são chamados de paisas todos que nascem na Antioquia, departamento de Medellín e várias outras lindas cidades nas suas proximidades, como Guatapé.

Há representações de casinhas e uma igreja, tudo sempre muito colorido e animado, mas o que há dentro delas, a princípio, é um mistério. Algumas se tornam restaurantes estilosos e lojas de artesanato, outras ficam abertas para contar um pouco da história local, o que inclui objetos e livros antigos.

Pueblito Paisa, Medellín • COL
Pueblito Paisa, Medellín • COL

Localizado no topo do cerro nutibara, uma montanha com vista privilegiada praticamente para toda Medellín, já que está bem no meio da cidade, o pueblito foi um lugar que visitei três vezes durante o tempo em que estive lá. Cada uma dessas vezes, em situações completamente diferentes, o que foi incrível para ter a experiência de forma mais completa, seja pelo dia ou pela noite, subindo a montanha de maneiras diversas.

Conhecê-las pode te ajudar a escolher qual tem mais a ver com você, caso você fique com vontade de visitar esse cantinho tipicamente paisa.

1. pela escadaria

Pueblito Paisa, Medellín • COL
+ Medellín: a cidade da eterna primavera

Na primeira vez em que eu estive no pueblito, a aventura começou muito antes de eu chegar ao local em si. Isso porque fazia menos de uma semana que eu estava na cidade, era o meu segundo dia de trabalho na fundação indicada pela AIESEC e os mexicanos resolveram aceitar o desafio de ir para um lugar novo, confiando completamente em mim e na Manu.

Como comentei no último post, eles não eram as pessoas mais determinadas do mundo, ainda mais se os passeios não incluíssem bebidas e dança. No dia anterior, eles preferiram ir para casa ao invés de explorar o jardim botânico com a gente, percebam. Mas nós emprestamos a eles um pouquinho do nosso espírito aventureiro e eles não demoraram a se deixar contagiar. Depois daquele dia, em todos os outros, escutamos a mesma pergunta: para onde vamos hoje? E eu sabia que tínhamos plantado uma sementinha ali. 

Fomos todos para a estação de metrô mais próxima da nossa fundação, a san antonio, após o fim do nosso expediente e um pequeno percurso na tranvía. Os meninos já pareciam viver uma experiência nova. Eles sempre pegavam táxis para se mover na cidade e agora estavam ali, todos serelepes com a gente no metrô. Eu e a Manu nos olhávamos de lado a cada segundo, como se eles fossem loucos, mas o Hugo e o Roque eram dois sem noção muito divertidos. A Azu e a Soff também estavam com a gente, mas elas eram uma espécie de meio termo entre nós e os meninos. 

Ainda que fosse minha primeira semana ali, eu já estava me acostumando com o transporte público. Era prático e acessível. Entre uma parada e outra, ainda escutávamos pelo autofalante o que podíamos encontrar perto de cada estação, e daquela vez não foi diferente. Para o pueblito paisa, escutamos que devíamos descer na estação exposiciones, mas ao olhar pela janela do vagão, alguma coisa não parecia certa. Ainda estávamos tão longe. Confirmamos com as pessoas ao nosso redor se aquela era mesmo a melhor estação e elas riram, pedindo para que ignorássemos a dica do metro só dessa vez. A estação mais próxima era a industriales, como já desconfiava a Manu, que havia ido ali uma outra vez. 

Deixado isso claro, agora teríamos que chegar até lá. O caminho da estação até o cerro não era exatamente curto, mas ao menos era fácil identifica-lo. Uma montanha com presentes gigantes em seu topo - por conta do natal - no meio da cidade, entre casas, prédios e lojas, não é algo exatamente discreto. Fomos andando e andando, com os meninos no nosso encalço, reclamando como crianças inquietas e perguntando se estávamos chegando. Eles estavam loucos para chamar um táxi desde que saímos da estação, mas entraram na nossa onda, dizendo que viveriam como autênticos brasileiros naquela tarde.

E ainda, quando perguntamos se eles estavam certos disso, repetiram – e continuaram o fazendo em outros dias - uma frase que eu dissera ainda na fundação, meio brincando, meio dando bronca neles para viverem melhor a cidade e economizarem o máximo possível durante nossas aventuras: somos estudiantes! 


Escrito por: Lisete Reis


 
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