27 de março de 2018

Me chame pelo seu nome

Me chame pelo seu nome

Em Me chame pelo seu nome, André Aciman conta uma história cercada de realismo, identidade e paixão. A autenticidade do sentimento dos personagens me prendeu logo nas primeiras páginas e contribuiu para que o leitura do livro se tornasse uma experiência incrível.

Elio tem dezessete anos e é filho de um renomado professor universitário, que a cada verão seleciona um intelectual aspirante a escritor para hospedar-se em sua casa. Durante seis semanas, o escolhido vai usufruir de todas as maravilhas de um verão na costa italiana enquanto obtém auxílio para compor sua obra — e é assim que Elio conhece o americano Oliver.

"Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi?"

Me chame pelo seu nome

O romance dos dois está claro desde o início, mas leva um tempo — mais ou menos metade do livro — para se desenvolver. Essa foi a única coisa que me incomodou um pouco, mas os próprios personagens esclarecem essa questão em uma passagem do livro: foi o ritmo deles. O tempo que precisaram. E essa demora apenas serviu para intensificar ainda mais os momentos vividos.

"— Você tem uns pensamentos às vezes... você vai ficar bem.
— Talvez. Mas talvez não. Desperdiçamos tantos dias... tantas semanas.
— Desperdiçamos? Não sei. Talvez só precisássemos de tempo para descobrir se era isso mesmo que queríamos."

Me chame pelo seu nome tem uma característica que me chamou a atenção: a veracidade. Eu sou apaixonada por histórias que parecem reais, que passam o sentimento de realidade, aquela empolgação de pensar "isso poderia ser comigo ou com alguém que conheço". Não pelo cenário, não pela construção do enredo no que diz respeito à ambiente familiar — mas sim pela incrível relação humana entre Elio e Oliver. O livro se passa na costa italiana, mas quando os dois estão juntos é apenas isso: os dois. De nada importam os detalhes.

A narrativa do Elio é inquieta. É inquieta mas também é eficaz — não peca em passar para os leitores os sentimentos de angústia e de dúvidas que permeiam aquele relacionamento. Ele assume para si o que sente, sabe o que deve fazer com aquilo e aí lhe falta a coragem, depois ele a ganha, apenas para perdê-la novamente. Conflitos. É um ciclo de perguntas de mais e respostas de menos, de descobertas, de sentimentos a flor da pele e de muito, muito desejo.

"A forte batida do meu coração quando ele aparecia sem aviso me aterrorizava e me fazia vibrar ao mesmo tempo. Eu tinha medo quando ele aparecia, medo quando não aparecia, medo quando ele olhava para mim, ainda mais medo quando não olhava."

Observar suas oscilações de humor em decorrência de sua situação é um prato cheio para quem ama analisar comportamentos. Ele assume para si mesmo o que sente desde o início, sim — mas isso não o impede de tentar constantemente se enganar. Não o impede de renegar o próprio desejo, de agir em desacordo e fingir que está tudo bem. No fim das contas, ele sempre descobrirá que não está, e isso impulsiona a história.

Me chame pelo seu nome

Já Oliver é um personagem desconcertante, do tipo que nunca sabemos exatamente o que está pensando — nossa visão de sua personalidade está encoberta pelo olhar do Elio, então vamos lhe conhecendo à medida que nosso narrador o faz.

Me chame pelo seu nome é atemporal. Se passa nos anos 80, mas poderia estar acontecendo agora mesmo, em qualquer lugar do mundo. Tem um quê de paixão, de aventura, de uma história que não foi vivida — mesmo que tenha, de certa forma, sido vivida. Eu fiquei angustiada pelas sombras de um "e se" que permeiam toda a narrativa, pelo desencontro, pela não coragem deles em se rebelar e viver o que tinham que viver, pela total compreensão dessa não coragem em viver o que tinham que viver. Não só Elio e Oliver sofrem com os inúmeros sentimentos conflitantes em sua história — nós também.



"O fogo dilacerou minhas vísceras (...) Não era o fogo da paixão nem um fogo devastador, mas algo paralisante, como o fogo de bombas de fragmentação que sugam o oxigênio ao redor e deixam você ofegante como se tivesse levado um chute na boca do estômago e o vácuo tivesse rasgado todo o tecido pulmonar e deixado a boca seca, então você espera que ninguém fale, porque você mesmo não pode falar, e reza para que ninguém peça que você se mova, porque seu coração está entupido e bate tão rápido que cuspiria estilhaços de vidro antes de permitir que qualquer outra coisa fluísse por suas cavidades estreitadas. O fogo do medo, do pânico, mais um minuto e eu vou morrer se ele não bater à minha porta, mas ainda assim prefiro que nunca bata."


As citações ao longo dessa resenha, acredito eu, passam um pouco da sensação que é ler o livro. Destaquei muitas mais, porque simplesmente não pude me controlar. O livro não é fácil, angustia, mas vale a pena. A intensidade vale a pena. Leiam Me chame pelo seu nome.

Me chame pelo seu nome




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*Este livro foi lido no mês de março para o Clube do Livro Infinistante! Para saber mais e participar, é só vir aqui. ♡


leia mais:
+ eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
+ o amor segundo buenos aires
+ quando finalmente voltará a ser como nunca foi


Escrito por: Jennifer Macieira
Arquivado em


 
25 de março de 2018

Um dia no centro histórico de Santa Marta

Santa Marta • COL

Chegamos em Santa Marta logo cedo e sentimos o alívio de ter a pele tocada pelo sol depois de alguns dias sofríveis no frio da capital colombiana. Nós ficamos tão felizes que a primeira coisa que fizemos ao chegar no hostel foi tomar um banho gelado e colocar roupas mais leves, deixando para trás as jaquetas e calças grossas com que chegamos na cidade.

Quando saímos para explorá-la não passava das dez da manhã, então passeamos muito tranquilamente. Ainda contamos com a grande vantagem de termos nos hospedado num hostel muito bem localizado, no meio do centro histórico e próximo à orla local, o que nos permitiu conhecer muitos pontos diferentes apenas caminhando.

Santa Marta • COL

Foi ali que tivemos o nosso primeiro contato com o Mar do Caribe, então mesmo que a cidade não fosse a mais famosa do litoral colombiano, conseguiu ser memorável de muitas maneiras para nós, começando a partir daí.

Sua orla não tinha muita estrutura turística, mas a água do mar cumpria seu papel de impressionar, com um azul ainda mais azul e uma calmaria fora do normal. Isso tudo somado aos barquinhos atracados em sua extensão e algumas tendas de artesanato local nos arredores me trouxeram uma sensação de familiaridade muito grande.

Santa Marta • COL

Depois de tantos dias longe do mar, lembrei de Maceió de uma maneira muito visual e percebi que não tinha pensado muito sobre a minha cidade até aquele momento. Pode até parecer estranho, mas senti uma paz muito grande no coração depois dessa percepção. Afinal, eu não estava com saudades de casa porque eu me sentia em casa.

Melhor ainda foi perceber que isso pouco tinha a ver com o lugar em si. Tive a sensação de que eu estaria bem onde quer que eu fosse porque eu me sentia bem comigo mesma e esse foi o melhor sentimento que pude experimentar em um bom tempo.

Santa Marta • COL

Nosso objetivo desembarcando em Santa Marta era mesmo visitar o Parque Tayrona, uma reserva natural muito famosa onde acamparíamos no dia seguinte, então ficamos meio dispersas no dia em que chegamos, mas isso acabou sendo uma coisa muito boa, porque ficamos livres para fazer o que quiséssemos, sem pressa e sem preocupações, apenas andando pelas ruas bonitinhas e coloridas da cidade.

Como eu comentei, não tinha muito o que fazer perto do mar, então nosso passatempo preferido foi nos perder pelo miolo do centro histórico mesmo. Em alguns momentos, não fazíamos ideia de onde estávamos, se perto do hostel ou não, apenas íamos virando as ruelas a medida que fossemos encontrando lugares mais atraentes e interessantes, e foi assim que nos deparamos com o Parque de los Novios.

Acredito que ele seja o ponto central da região, onde se concentram alguns órgãos públicos da cidade, uma igrejinha e diversos bancos de madeira que provavelmente dão nome ao parque, já que, além de famílias, amigos e crianças, também haviam muitos casais espalhados por ali, conversando e aproveitando as sombras das árvores naquele dia quente.

Santa Marta • COL

Me lembro como se fosse ontem que foi ali, em plena onze da manhã, que eu e a Lê decidimos procurar um lugar para almoçar, mortas de fome desde que chegamos de Bogotá e sustentadas apenas por um iogurte com aveia às cinco da manhã. E me lembro ainda mais claramente o quão difícil foi encontrar um restaurante aberto e acessível.

De todas as ruas que passamos, nenhum lugar específico chamou nossa atenção e olhe que nós estávamos realmente interessadas. O pior foi que decidimos procurar um lugar apenas quando não aguentávamos mais andar e quando a fome estava nos consumindo, uma ideia não muito boa como vocês podem ver.

Santa Marta • COL

Foi então que surgiu uma luz no fim do túnel - literalmente, apenas observem essas ruazinhas - e encontramos um restaurante delicioso que nos custou apenas 16.000 COP. Sua entrada era simples e estava completamente vazia, mas perguntamos pelo menu do dia e resolvemos ficar.

Uma dica valiosa para qualquer pessoa viajando na Colômbia é perguntar isso, porque todos os restaurantes aderem a filosofia de adotar um prato principal para custar mais barato naquele dia e o tal menu ainda inclui bebida, caldo e, às vezes, até uma sobremesa. (Sim, eles tomam caldo antes do prato principal mesmo que faça o maior calor do mundo.)

Santa Marta, COL

Nesse restaurante específico, me senti ainda mais satisfeita, porque o prato estava uma delícia e havia uma área aberta muito aconchegante nos fundos do restaurante. Uma pena que eu não lembre do nome dele para recomendar! Mas se vocês estiverem passando por Santa Marta qualquer dia e verem algo parecido com a foto acima, já sabem.

Foi lá que eu e a Lê descobrimos uma bebida ma-ra-vi-lho-sa chamada água de panela, que eles fazem com rapadura, derretendo alguns pedaços na água e servindo o resultado com muito gelo e limão. Cara, como aquilo era bom.

A moça que estava nos servindo amou o nosso interesse e começou a nos explicar como fazia. Antes de irmos embora, ainda nos presenteou com alguns pedacinhos de rapadura, sério. Ela foi muito atenciosa e estou enviando ondinhas mentais de agradecimento só de lembrar - mesmo que nós não tenhamos tido chance de fazer a receita depois.

Praia de Taganga, Santa Marta • COL

Depois desse momento incrível que foi o de comer, resolvemos voltar para o hostel e perguntar o que mais podíamos fazer por ali durante a tarde, já que o centro histórico fora superado. A recepcionista então nos indicou a Praia de Taganga e foi para lá que nós fomos, após um breve percurso de ônibus. Era tudo muito próximo e fácil de encontrar, nos informando com as pessoas que passavam pelo nosso caminho.

Eu só achei engraçado o fato de ela estar completamente lotada de turistas, ao contrário da praia localizada em frente ao centro histórico, mesmo o mar desta última sendo bem mais bonito. Mas vai entender, né?

Eu e a Lê relaxamos por um bom tempo e ainda comemos umas frutas antes de irmos embora. Resistimos o máximo que conseguimos aos ambulantes da costa colombiana, que conseguem ser ainda mais acalorados, fazendo de tudo para chamar atenção de possíveis clientes.

Só no meio da tarde voltamos para o centro histórico, ainda andamos umas oito quadras atrás de um supermercado: o que a gente não fez para economizar nessa viagem, eu não sei. Rolou uma feirinha de sobrevivência para o camping marcado para o dia seguinte e só com tudo certinho decidimos voltar para o hostel novamente, para fazer uns sanduíches.

Santa Marta • COL

Escrevendo agora sobre tudo que fizemos durante esse dia em que chegamos, parece até que ele não teve fim, porque fizemos tudo com tanta calma e ainda assim tivemos tanto tempo para curtir cada momento. Esquisito, né? Mas de uma forma muito boa.

Santa Marta • COL

Só voltamos a caminhar pelo centro histórico à noite e essa foi uma experiência totalmente diferente. A cidade parecia ainda mais linda e viva. Nos sentamos num bar que tocava um rock suave e eu pedi minha já tradicional cuba libre. Uma programação tão tranquila, mas tão gostosa que fiquei com a sensação de que tudo estava como tinha que estar.

Foi esse turno que fez a cidade se consagrar como uma das minhas preferidas, porque passei momentos muito bons ao lado de pessoas que deixaram lembranças mais do que positivas na minha vida. A Lê já dispensa apresentações, mas também estavam conosco a partir do fim da tarde a Paty - uma brasileira que se hospedou no mesmo hostel que a gente tanto em Bogotá quanto em Santa Marta - e o Filipe, um cara lá do Espírito Santo que encontramos fazendo mochilão naquelas bandas.

Viramos a noite conversando, escutando músicas boas e trocando ideias sobre a vida. Isso me fez imaginar como cada escolha que eu fiz - viajar para aquele país, conhecer aquela cidade, me hospedar naquele lugar, naquele exato dia - me trouxe até aquele momento, olhando as estrelas diretamente do terraço do Mango Tree Hostel em companhia de pessoas incríveis, me sentindo compreendida pra caramba e mais em paz do que jamais estive até ali.




Mango Tree Hostel
Cl. 12 #438, Santa Marta, Magdalena, Colômbia

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Escrito por: Lisete Reis


 
23 de março de 2018

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Livro que já começa a impactar pelo título, que mais parece uma poesia, uma sina, o avisar de uma tragédia. Uma paixão, uma intensidade. Algo belo e algo triste. Foi exatamente assim que me senti ao virar a última página: impactada.

"Alguns amores levam à ruína. Eu soube disso desde a primeira vez em que Lavínia entrou na minha casa."

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Marçal Aquino traz uma história ambientada do interior do Pará, onde o narrador é o fotógrafo Cauby, que veio de São Paulo para passar um tempo explorando a região. Ele logo encontra Lavínia, uma mulher tão bela quanto misteriosa - uma mulher que vai mudar completamente o rumo da sua vida.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é o tipo de livro que mostra o amor em sua essência. O amor cru e intenso. O amor firme, verdadeiro, mas também imprevisível. Cauby e Lavínia se envolvem de uma forma natural, o desejo que logo vira ternura e logo se transforma em algo maior, algo que definitivamente nenhum deles jamais esperou.

A história é narrada em flashbacks. O Cauby do presente, que ainda sofre as consequências de suas escolhas, nos ambienta em relação à ordem cronológica dos infortúnios que marcaram sua vida e a todo momento solta nuances que nos fazem confabular sobre o que pode de fato ter acontecido. Isso é o que nos mantém presos à história, que algumas vezes perde um pouco do ritmo por estar muito intrincada ao passado. Nossas expectativas estão no presente e queremos logo descobrir os caminhos que o levaram até ali. Ou o caminho: Lavínia. Queremos descobrir o que tem essa mulher, quem ela é, por que ela é capaz de despertar sentimentos tão profundos. Quem é Lavínia?

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Lavínia foi a ruína particular de Cauby - logo vamos compreendendo o quote que afirma isso, ainda no início do livro. Ela convive com seus próprios demônios e praticamente o suga para dentro de seu caos sem ter qualquer intenção disso, sem que possa ao menos perceber. Ela é uma mulher absolutamente incompreensível: recatada, impulsiva, doce, vulgar. Todas em apenas uma. Quantas de nós não somos assim para conseguir sobreviver? Quantas de nós não fugimos um pouco de nós mesmas quando a realidade nos exige demais? Eu acredito que existe um pouco de Lavínia em cada mulher que coloca as mãos nessa história. E em cada uma que não coloca também. 

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

A mujeres como yo no las conoces; las contraes.


Essa frase está exposta nas primeiras páginas da obra e resume bem a sua essência. Cauby contraiu Lavínia e agora vive os efeitos colaterais dessa "doença". E tudo bem - se esse é o preço a pagar, ele está plenamente disposto. E é isso o mais incrível de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. A entrega.

"Não me canso. Recito em voz alta: Lavínia. É música na minha boca. Minha canção e meu estandarte. Meu poema sujo de sangue. E meu apelo para que volte."

É incrível, é bonito e é triste. Eu amei esse livro de tantas formas que estou caindo em repetição ao tentar falar sobre ele, mas é isto: ele é incrível. A forma como tudo se encaixa e como são colocados os sentimentos finais me fez respirar fundo e ficar meia hora olhando para a parede pensando na intensidade de tudo o que eu tinha acabado de ler. É um livro que faz sentir.

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Por inúmeras vezes me vi na Lavínia. E por mais assustador que isso possa parecer em alguns momentos, é natural. É natural porque ela é uma mulher que foi muito maltratada pela vida e que luta para se manter sã, para se manter limpa e fiel a si mesma. Pareceu familiar? Porque é. E é porque esse é um resumo da vida de muitas mulheres na nossa sociedade. Mulheres que querem desesperadamente se manter sãs enquanto a vida em nada colabora para isso.

Por uma perspectiva, Cauby também pode ter sido a ruína da Lavínia - mas é também a sua salvação. Entendem quão complexa se torna essa relação? E o quanto ela pode nos fazer refletir? Repito: é algo que nos faz sentir.

Quando o título do livro já é uma poesia não dá para esperar menos da sua história.

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

"Nunca prometemos nada um ao outro, e eu sabia que podia acabar de repente. Poema que cessa antes de virar a página. Um haikai. Na prática, contudo, não me conformava com a ideia. Eu queria mais."






Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios só tem um defeito: o preço é um pouco salgado. Mas eu não hesito em dizer que vale a pena cada centavo, especialmente por ser uma obra nacional. 

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Escrito por: Jennifer Macieira


 
8 de março de 2018

O que aconteceu comigo em 2017

Sem título

Era janeiro e eu estava de volta ao bloco de comunicação social, na ufal, para a minha primeira aula do quarto semestre no curso de Jornalismo. Um semestre que eu esperava que fosse tão tranquilo quanto havia sido seu antecessor — mas não foi bem assim.



I never trust my feelings...



abr, 2015
universidade federal de alagoas

A história que eu vou contar não é bonita, emocionante, nem mostra uma superação incrível. A história que eu vou contar mostra a realidade — a realidade de muitas meninas e mulheres por aí, que você e eu podemos conhecer. Só que a protagonista dessa história, para a minha surpresa, fui eu. É muito fácil para todo mundo acreditar que a violência psicológica não existe, ou que é muito fácil dar um basta nela. Afinal, ninguém está realmente ferindo alguém, certo?

Errado. E eu posso afirmar isso através da dor da experiência que é viver algo assim.

Sempre fui uma garota de ficar mais na minha e ter poucas amigas. Na época do colégio, a Lisete e a Natália formavam o meu porto seguro e hoje eu já não consigo imaginar a minha vida sem elas. Aliás, elas, infelizmente, participaram diretamente desses acontecimentos difíceis. Quando eu vi que eles estavam atingindo pessoas tão importantes para mim, uma força que eu não sabia que tinha começou a se fazer presente e eu fiquei ainda mais determinada a fazer aquilo parar de uma vez por todas. O que eu aprendi com isso? Eu amo minhas amigas. E preciso aprender a me amar da mesma forma.

Então, dito isto, vamos lá: eu comecei a estudar comunicação social na ufal em março de 2015. No final de abril do mesmo ano, o meu pesadelo começou.

Em um resumo, um dos meus colegas de classe resolveu se aproximar de mim via whatsapp. E, logo depois, pessoalmente. Forçando situações em que pudéssemos conversar, situações as quais eram nada naturais — enquanto eu estava com minhas amigas na aula, enquanto eu estava fazendo algum trabalho com minha equipe, enquanto eu estava em qualquer lugar em que ele também estivesse. Quando me via largava quem quer que fosse e ia correndo atrás de mim. Sim, correndo. Literalmente.

Essas coisas, por mais que pareçam bobas, começaram a me assustar. Ao mesmo tempo, comecei a enfrentar algumas dificuldades com a faculdade, relacionadas ao meu rendimento e a minha frequência porque sempre fui muito tímida, mas a ufal estava me fazendo entrar em pânico. E essa situação, correndo por fora, definitivamente só piorou tudo. Aquilo precisava parar e eu decidi ser completamente sincera: falei como as ações dele estavam fazendo eu me sentir. Em troca, recebi o vitimismo. 




Frightened by my feelings




jan, 2016
universidade federal de alagoas

o segundo semestre veio e agora eu mal podia entrar na sala sem que uma cena acontecesse. mãos no rosto, folhas no rosto, cabeça abaixada... o que pudesse fazer para não me ver estava valendo. o engraçado era que em público o comportamento era esse, mas quando eu estava sozinha a história era diferente. meus pais passaram a ir me levar para a aula, e eu sempre forçava atrasos para chegar quando pudesse entrar na sala já com vários alunos. meus pais passaram a ir me buscar na aula, e chegavam sempre mais cedo para eu poder ir direto para casa quando largasse. minhas amigas passaram a sempre esperar por mim quando por algum motivo eles não conseguiam chegar cedo. e só depois elas iam para casa.

mas é claro que todo mundo tem a sua rotina — e ela não poderia girar em torno de mim. sendo assim, uma vez ou outra havia momentos em que eu estava sozinha, e agora eram nesses momentos que ele se aproximava. cheguei a forçar uma ligação para a minha mãe quando percebi a intenção de uma aproximação, para que ele visse que eu estava ocupada com alguém e me deixasse quieta. é necessário dizer que não funcionou? quando me dei conta, ele estava ali, parado na minha frente enquanto escutava a conversa e aguardava que ela terminasse. levantei sem pensar duas vezes e andei o mais rápido possível para longe dali, alegando que estava indo embora. sentada no sofá da biblioteca, eu tentava me recuperar da sensação de impotência que tomava conta de mim — eu tinha manchas vermelhas pelo corpo causadas pela raiva e pela tensão, e lágrimas teimavam em cair por mais que eu tentasse manter a calma.

novamente decidi dar um basta. conversei, e expus de uma forma mais dura o absurdo que era aquele comportamento. eu não aguentava mais me sentir tão constrangida e tão impotente. mas, de novo, ele: o vitimismo. fui bloqueada. logo, bloqueei de volta. não iria admitir mais nenhum tipo de contato com uma pessoa que vinha me causando tão mal e elevando a minha ansiedade a níveis preocupantes — especialmente porque, naquela época, eu não estava fazendo nenhum tipo de tratamento.

as crises de pânico vieram e com elas o desânimo também. eu não sentia a menor vontade de ir para as aulas, algo que para mim já era difícil sem essa situação. ele tentou falar comigo através de pelo menos uns dois números diferentes, sem sucesso. e então aconteceu: ele tentou me abordar no meio da sala, com professor e colegas presentes, minutos antes da aula começar. o motivo era o seguinte: uma carta de várias páginas manuscritas que ele precisava que eu recebesse.

me recusei. falei que ele sabia que estava passando dos limites. insistência, muita insistência. quando eu estava a ponto de perder completamente a paciência, minha amiga interferiu e mandou ele sair dali. incrivelmente, quando ela falou isso, ele saiu. de novo, a impotência.

mas ele não saiu de uma maneira silenciosa. claro que não.

a tempestade com que ele abriu e fechou a porta foi tão grande que quase atingiu uma colega que ia chegando, e isso assustou todos que estavam presentes. minhas colegas todas sabiam o motivo daquilo, e me perguntaram apenas para confirmar. e daí o trabalho foi para explicar ao professor e ao restante da turma o que tinha acontecido. e estava acontecendo. esse foi um dos momentos mais legais que vivi no cos, o prédio de comunicação social. foi um dos momentos mais legais porque eu me senti acolhida e protegida por colegas que não muito antes mal trocavam um olhar comigo. na segunda aula desse dia, eu comecei a chorar e já não sabia mais como lidar com a avalanche de sentimentos que tudo aquilo me causou.

as cenas continuaram até o fim daquele período e, no terceiro, ele mudou o horário das aulas. finalmente parecia que eu ia conseguir enfim ter um pouco de paz para focar apenas em mim e nos meus estudos. assim, o terceiro período passou sem maiores incidentes, e eu, inocente, me permiti ter esperanças.

mas vamos a 2017.




Holding down my feelings




jan, 2017
universidade federal de alagoas

quando eu estava terminando o meu terceiro semestre da faculdade, minha mãe conseguiu entrar para o curso de letras, iniciando no período seguinte. nem preciso mencionar aqui o quanto nós ficamos felizes mesmo sabendo que não seria fácil. a natália já estudava letras há um período e poderia servir como um apoio, sem falar que agora iríamos juntas para a ufal no período da tarde, o que ajudaria a economizar e, tecnicamente, na minha segurança. só que não foi bem assim. não foi porque mal o quarto semestre começou e eu comecei a encontrar meu colega com bastante frequência na fale, o bloco de letras da ufal.

como ele tinha passado a estudar no turno da noite, de primeira aquilo não fez sentido pra mim. mas logo depois cheguei à conclusão de que ele deveria fazer parte do ccc - casa de cultura no campus, que oferece aulas de inglês gratuitas para alunos da instituição, onde a minha amiga natália até hoje é professora. mas ela não era professora dele, pelo menos.

tudo começou a piorar porque os horários batiam exatamente com os meus e com os da minha mãe. não foi raro eu chegar na fale e encontrar mamãe possessa porque tinha encontrado com ele, ou porque o tinha visto lhe observando. ela pediu várias vezes que eu permitisse que ela fosse confrontá-lo, mas eu achei melhor evitar. eu tinha medo pela minha mãe também, é claro que tinha. e de jeito algum queria que ela chegasse perto daquela pessoa.

eu tinha a fale como uma espécie de refúgio. sempre que passava mal em alguma aula e não conseguia controlar alguma crise de choro, o que acontecia com certa frequência, eu corria pra lá e pro colo da nati sempre que possível. depois que minha mãe passou a ser aluna de lá, esse sentimento só ficou mais forte — mas agora estava tudo acabado. o sentimento de alívio que o lugar me passava passou a ser um sentimento de tensão e tudo isso veio como uma tempestade de volta para cima de mim.


8 mar, 2017
universidade federal de alagoas

era dia internacional da mulher e eu estava doente. cogitei me dar um presente e ficar em casa naquele dia, já que minha aula seria apenas às 17h e a da minha mãe às 13h30. seria muito tempo de espera para uma pessoa saudável, imagine para alguém doente, mas um espírito estudioso tomou conta de mim e eu decidi ir mesmo assim. quem dera não tivesse tomado essa decisão.

fui com mamãe tirar umas cópias que ela precisava, em um prédio ali ao lado. quando entrei com ela, estava distraída conversando até que ouvi um grito. levantei a vista a tempo de ver alguém correr e entrar em uma das salas de aula que estavam vazias naquele horário. e imediatamente soube de quem havia sido o grito. fiquei nervosa. inquieta. constrangida. vários colegas de classe da minha mãe estavam por perto. fiquei literalmente sem saber o que fazer, mas tentei respirar fundo enquanto mamãe fazia o que precisava e ele continuava escondido. logo depois decidir ir embora com ela, porque eu não aguentaria outro escândalo daqueles.

assim, enquanto lemos um relato desses, pode parecer uma bobagem e um exagero. mas não é. você ouvir uma pessoa gritar desesperada em um lugar público por você simplesmente estar ali é doentio. é assustador. é se sentir a pior pessoa do mundo mesmo com a clareza de que nada daquilo é culpa sua. eu sabia que não era minha culpa e eu me sentia culpada mesmo assim quando esse tipo de coisa acontecia. é sentir culpa e raiva e impotência — tudo ao mesmo tempo.

voltei pra casa e fiz o possível pra relaxar. vi futebol. conversei com pessoas especiais para mim. e fiquei bem. apesar de tudo, havia sido um bom dia. só que ele não havia acabado.

sempre dormi muito tarde. muita gente sabe disso, inclusive ele sabia, graças a época em que passava horas e horas puxando assuntos para tentar conversar comigo. naquele dia, estava entretida com o notebook fazendo as coisas que eu amo fazer quando finalmente lembrei de dar uma olhada no celular. não havia nenhuma notificação aparente, mas desbloqueei e fui olhar mesmo assim. achei uma notificação escondida do telegram, o que me fez estranhar e abrir na mesma hora, já que era um aplicativo que eu não usava mais fazia algum tempo. era uma mensagem dele, mas não uma mensagem qualquer.

a primeira coisa que notei foi a hora. logo chequei o relógio — já passava de 1h da manhã, e o texto tinha sido enviado mais de uma hora antes. a segunda coisa que eu notei foi o tamanho. eram quatro parágrafos enormes, com direito a poesia no fim e tudo. mas nada daquilo fazia sentido e eu fiquei tão nervosa que fechei tudo para tentar organizar meus pensamentos. respirei fundo, tentei me acalmar e abri novamente. ele mandava por um número diferente do que eu sabia, mais uma estratégia para conseguir entrar em contato comigo. comecei a ler o texto fora da ordem cronológica — uma mania que tenho na vida e que sempre prejudica a minha concentração. mas isso foi crucial para que eu não demorasse muito a perceber que o que eu tinha em mãos era um bilhete suicida.

não importa o quanto eu tente, palavras jamais serão suficientes para que eu consiga explicar o que senti no momento. eu fiquei desesperada, angustiada, completamente perdida. eu poderia dizer que entrei em choque, porque, de início, tive absolutamente nenhuma reação. passou tudo e nada pela minha cabeça: raiva, culpa, preocupação e raiva novamente. eu não sabia o que fazer, então meu corpo começou a reagir por mim. eu chorei — eu chorei muito. meu cérebro rapidamente fez as contas e se ele realmente estivesse disposto a fazer algo, àquela altura já teria feito. fiquei tão desnorteada que, quando já passava das 2h, eu acordei minha mãe. já tinha mandado mensagens pra dois amigos, mesmo sabendo que eles estariam dormindo. só que eu precisava falar com alguém.

minha mãe ficou brava. com ele. porque aquilo era tão absurdo de se fazer com alguém que nós duas simplesmente não conseguíamos expressar uma pra outra o que estávamos sentindo. o amparo da minha mãe foi a coisa mais importante pra mim naquele momento e quando eu finalmente consegui me acalmar mais, levantei da cama para ir ao banheiro e foi aí que eu realmente percebi o quanto meu corpo reagiu ao meu desespero. sangue. tinha sangue no lençol no colchão e na minha roupa. e não era pouco. eu estava no final do meu ciclo e eu nunca — nunca — tinha visto aquela quantidade de sangue saindo de mim.

meu organismo ficou tão desequilibrado quanto as palavras que eu havia acabado de ler. a mensagem não era uma simples despedida: as palavras eram cruéis. aquele texto foi feito para eu me sentir mal. para eu sentir culpa, apesar de ele frisar ali que não era nada disso. como não era? em um dos trechos, ele fez questão de destacar o quanto já tinha ouvido falarem mal de mim pelas costas. o quanto já tinha ouvido de colegas minhas como eu era uma idiota, imatura e mal amada. para uma pessoa com a autoestima baixa, isso é o mesmo que vários socos no estômago, porque eu realmente percebia que me tratavam um pouco diferente. ele também destacou que, ao contrário delas, sempre teve uma visão positiva de mim e preferia seguir acreditando que o meu coração era bom. tão legal ele, não é? e eu cometendo aquelas injustiças!

no fim das contas, ele continuou muito vivo. um colega, que se tornou meu amigo, entrou em contato e ele alegou ter, sim, atentado contra a própria vida, mas não teve sucesso. dos males, o menor. eu acho que poucas vezes na vida senti tanto alívio. eu cheguei a me perguntar se aquela tinha sido mesmo a intenção ou se tudo aquilo havia sido uma atitude desonesta para me fazer ir atrás dele. até hoje eu não sei. e tento não pensar mais no assunto. nem no presente que recebi no dia internacional da mulher de dois mil e dezessete.


abril, 2017
universidade federal de alagoas

era final de abril e eu havia acabado de entrar no restaurante universitário com dois amigos, sendo um deles também um colega de classe, aquele que me ajudou depois do bilhete suicida. eles seguiram para a fila e eu fui buscar um lugar para sentar. estava completamente relaxada e bem, apenas matando um tempo enquanto minha mãe não largava. só que essa tranquilidade logo se transformou em tensão. mais uma vez.

não demorou muito tempo para o meu colega sair da fila e vir até o lugar que eu tinha escolhido. o motivo? ele, (sim, ele) estava lá. e estava bem perto de mim. minha postura mudou imediatamente e nós dois fomos buscar uma mesa do lado oposto do restaurante, um lugar de onde eu poderia observar melhor o ambiente e também os meus amigos na fila. um, dois minutos. e então ele apareceu.

ele não seguiu para onde eu estava. ele sabia que seria um erro. então ele foi direto para onde os meninos estavam — e começou a gesticular e a gritar e a fazer uma cena. eu fiquei nervosa e inquieta porque eu não conseguia entender nada do que eles diziam, mesmo sabendo que não era nada bom. eu não podia me aproximar, porque sabia que seria pior. e eu não podia ir embora. fiquei plantada onde estava assistindo aquela cena acontecer.

lembrando agora, parece uma eternidade. porque foi mesmo — para mim e para eles, eu tenho certeza que foi. as pessoas olham. coisas assim acontecem diariamente, mas parece que nunca conosco. achar isso é sempre o nosso erro. eu estava cada vez mais apavorada com a iminência daquilo se tornar uma briga física, e minha ansiedade, ao invés de fazer eu me mexer, me congelou onde estava. eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. mas estava.

a discussão era voltada para o meu colega, que havia sido amigo dele em outros tempos, mas que agora já não concordava com as suas atitudes. e isso me assustou. meu outro amigo conseguiu fazer com que ele parasse com aquilo a tempo, e foi com ele em direção a saída. e quando meu colega veio falar comigo, eu finalmente pude saber o que tinha se passado. ciúmes. ele estava absolutamente descontrolado de ciúmes. as pessoas fazem coisas absurdas por ciúmes.

quando estávamos de volta só os três, fomos embora imediatamente. eu já tinha falado com minha mãe e ela estava me esperando no estacionamento da fale — para onde os meninos foram me levar. porque agora eu precisava de babás para todo lugar que ia. eles nem sequer comeram, pegaram o lanche para comer depois. um dia em que estava tudo bem havia se transformado em um estresse imenso. mais. uma. vez.

eu já não aguentava mais aquilo. e então aconteceu.


maio, 2017
universidade federal de alagoas

eu estava saindo do cos quando recebi mais uma mensagem do meu amigo. eu tinha acabado de sair de uma prova de reavaliação e estava com aquele sentimento bom de alívio, até ele dizer que tinha sido procurado para receber uma carta. a carta dessa vez era para ele, não para mim. uma possível consequência daquele dia no RU, algumas semanas antes. ele concordou em receber e logo descobriu que na verdade, sim, havia também uma para mim. estratégias para entrar em contato comigo — sabem como é.

fui à ufal no dia seguinte junto com minha irmã apenas para recebê-la. dessa vez eu quis tê-la em mãos. não de início. a minha primeira reação foi não querer saber. eu não queria absolutamente nada que viesse daquela pessoa, eu não queria ler nem mais uma palavra dele. mas então a jess, minha irmã, resolveu que queria sim ler e que nós iríamos buscar. então assim fizemos.

eu li as duas cartas. a carta para o meu amigo estava carregada de um ódio doentio e de ameaças veladas. era uma coisa absurda, porque ele falava as coisas e depois tentava amenizar, disfarçar, acalmar. mordendo e assoprando. a minha não. a minha era carregada do drama e do vitimismo de sempre. eu fui obrigada a ler que a culpa de tudo aquilo estar acontecendo era minha, porque eu recusei aquela primeira carta que ele quis me entregar. essa minha atitude, em palavras dele, o destruiu. e agora ele fazia de tudo para eu ler, para impor a vontade dele diante da minha. uma prova disso é que nessa nova carta havia inúmeras citações da antiga, a que eu recusei. aliás — essa nova carta mais parecia um trabalho acadêmico, com citações, regras da abnt aplicadas e mais um pouco. absolutamente doentio. assustador.

essa nova carta foi o começo do fim. em mais de um aspecto.

ao lê-la, eu e minha irmã identificamos muitas ameaças. meu sobrenome é muito característico, macieira não é um nome que se encontre com frequência por aí. e na carta ele dizia que estava até mesmo com uma aversão a maçãs e que, quando via a fruta, sentia vontade de atirar contra a parede. o equilíbrio da pessoa. ele estava nulo.

lá também dizia que aquela situação fazia todos perderem. que nós não nos falarmos era algo ruim e que aquele clima pesado permanecendo por mais tempo iria levar a consequências ainda piores. jess sublinhou todas essas ameaças, e no dia seguinte nós estávamos na delegacia. eu precisava de paz. eu precisava que aquilo parasse. meu corpo e minha mente estavam dando sinais — e eu precisava ouvir.

fiz todos os procedimentos, e uma das minhas amigas testemunhou para mim, mesmo com medo. eu até hoje não sei como agradecer por isso. o processo seguiu, bem lento. eles não tinham nenhum dado dele além do nome que eu forneci, e a universidade precisava entrar em cena. o que demorou meses.

as férias chegaram e eu me permiti ter um pouco de esperança de tudo aquilo passar. mas então a lis entrou em contato comigo: estava nervosa, tremendo, precisou beber uma água. ele tinha entrado em contato com ela. e aí eu fiquei completamente fora de mim. se ele já havia passado dos limites antes, agora não tinha nem conversa. eu havia relutado em ir na delegacia pela primeira vez, mas agora iria quantas vezes fossem necessárias.

ele não sabia se eu tinha recebido aquela nova carta, então procurou na internet pela amiga que ele sabia que escrevia um blog comigo. enviou um anexo para ela. implorou por ajuda. contou a história na versão dele. demonizou meu amigo. disse que ele era o culpado por ele tentar se matar. tudo isso em cima da minha amiga. nós conversamos e chegamos no acordo de que ela não iria responder. nem mesmo ele saberia se ela viu ou não. isso o inibiria. foi o que pensamos.


ago, 2017
universidade federal de alagoas

o quinto semestre começou e, sem nenhuma resposta por parte da lis, ele tomou medidas ainda mais desesperadas. descobriu o curso dela, descobriu que uma menina que tinha estudado com ele no inglês era da sala dela e foi atrás. sim. ele foi atrás de uma colega de classe da minha melhor amiga para pedir o número dela do whatsapp. diante de uma negativa, na semana seguinte ele surgiu com um novo método: escreveu à mão tudo o que ele tinha antes digitado e mandado no privado do facebook da lis, além de ter impresso uma outra cópia daquela nova carta para mim. para se certificar de que ela leria tudo o que ele queria que ela lesse. para impor a vontade dele diante da dela. sem sucesso. a menina entregou a encomenda para a lis, completamente constrangida. e ele cobrou resposta para ela, o que fez a lis responder algo apenas para ele parar de perturbar a sua colega. todo mundo tinha que fazer o que ele queria e seguir o roteiro dele.

mas a resposta da lis não foi a que ele queria. ela disse que ele jamais conseguiria algo dela e que todas as minhas amigas iriam me proteger. mandou ele se afastar.

ele não se afastou. ele foi em busca de outra amiga. lembram da natália? pois é. nesse infeliz semestre, ela era a professora dele de inglês. e ele sabia que éramos amigas. procurou ela no início da aula e tentou começar o assunto — e foi cortado imediatamente. recebi áudios da minha amiga naquele dia mais tarde, completamente brava por ele ter tido aquela audácia. ela deu aula sentindo o corpo tremer de raiva. ele estava fazendo aquilo com as minhas amigas, que sempre me ajudaram e que sempre estiveram ali por mim. aquilo definitivamente não podia continuar. procurei ajuda na pró reitoria da universidade, e só o que puderam me oferecer foi acompanhamento psicológico. procurei ajuda com o coordenador do meu curso, que deu pouco ou nenhum valor para a situação e ainda me falou para "deixar ele para lá, não dar atenção". como se eu nunca tivesse pensado naquilo antes. e nada da polícia dar resposta.

eu vi uma lixeira ser esmurrada em um dia que encontrei com ele por acaso. ele gritou, correu e esmurrou uma lixeira. por ter me visto. eu não me permiti ficar assustada, porque minha mãe e minha irmã estavam bem ali já me esperando. eu apenas entrei no carro e fui embora.

uma semana depois, mais uma lixeira se foi. ele estava depredando o patrimônio da universidade. apenas por me ver. e apesar do que todos achavam, que ele me via como alguém que tinha a aura de um anjo e que jamais seria capaz de me machucar fisicamente, foi inevitável para mim pensar em quanto tempo levaria para que as lixeiras dessem lugar ao meu rosto. a partir daí, sem a minha família por perto para fazer eu me sentir segura, eu me permiti assustar. no dia do falecimento da segunda lixeira, eu estava na fale com a layla, uma das minhas amigas da ufal, e com meus dois amigos. mais uma cena, mais uma crise. ele fez uma pessoa vir até nós perguntar quem era a jennifer, porque ele precisava falar comigo. de forma alguma eu me aproximaria dele e fui embora na primeira oportunidade.

mais tarde eu fiquei sabendo pela natália: ele tentou se matar. mais uma vez. ali mesmo. ele chamava pelo meu sobrenome enquanto algumas pessoas o socorriam — pessoas que eram ex-colegas da minha mãe. que sabiam quem eu era. sim, ex-colegas. minha mãe desistiu de estudar para me manter longe da fale, e ninguém conseguiu fazê-la mudar de ideia.

na semana seguinte, nós quatro estávamos no cos. eu, minha amiga e meus amigos. uma colega nossa se aproxima e diz que quer conversar comigo. já imaginei qual seria o assunto, e não deu outra: ele a tinha procurado na noite anterior para pedir ajuda. para que ela falasse comigo para retirar a queixa, porque ele finalmente havia sido intimado para depor. ela recusou e veio me alertar. mostrou coisas absurdas que ele falou. coisas que me assustaram ainda mais. se é que isso era possível. apesar de tudo, todos nós ficamos felizes. aquilo era sinal de que a polícia finalmente havia começado a agir. e assim eu e a layla fomos para a aula.

nós estávamos na metade do caminho quando os meninos nos alcançam correndo.

ele estava ligando para um deles, o nosso colega. depois de um desencontro de opiniões quanto a atender ou não (eu, contra. eles, a favor), ele atendeu. e as notícias não foram boas.

ele estava ali, e ele queria que nós, eu e meu colega, fôssemos até onde ele estava. ele estava irredutível e quando meu colega disse que não estava no cos, ele entregou: sabia que sim. tanto ele como eu estávamos ali. então nos demos conta: ele estava nos vendo. dei alguns passos para trás e olhei pela porta. ele estava ali, do outro lado, perto de uma árvore. nos encarando.

aquilo se transformou em um rebuliço. mais pessoas ficaram sabendo. minha colega, com quem ele tinha falado na noite anterior e para quem ele ligou em seguida, o fez ir embora. depois de muito insistir. não permitiu que ele se aproximasse de mim. e ao ver quantas pessoas estavam ali comigo, ele finalmente desistiu. mas todos nós já estávamos com o nível de estresse passando dos limites.

para falar a verdade, eu não me lembro muito desse dia. apenas lembro de chorar na sala. de receber abraços que confortaram. de dizer para o professor o motivo de eu precisar ir embora. e eu fui embora. a layla foi para a minha casa e ficou lá comigo. passamos a noite conversando e falando sobre a vida, em como ela é imprevisível e cruel quando quer. e no dia seguinte seguimos para a delegacia. ele não iria mais conseguir me calar com ameaças.


fev, 2018
8º juizado especial cível e criminal, ufal

a audiência ocorreu em fevereiro, uma semana depois do dia em que completei vinte e um anos. e seis meses depois dos piores acontecimentos da minha vida, meses nos quais eu tive que viver com a palavra do pai dele de que ele jamais voltaria a me importunar e que iria buscar um tratamento. não foram meses bons.

eu fiz questão que a minha defesa fosse feita por uma mulher. não por menosprezar o trabalho de um homem, mas por ter a certeza de que ninguém pode imaginar o que é passar por uma situação dessas a não ser outra mulher. ela lidou absurdamente bem com o caso. e comigo. não foi só minha advogada, mas também uma psicóloga e uma amiga para mim. fiz algumas escolhas ruins na vida — mas também fiz outras fantásticas.

ele não pode mais se aproximar de mim, da minha família nem dos meus amigos. não pode falar de mim na internet ou através de qualquer meio. não pode mencionar o meu blog — esse blog — em nenhuma de suas redes sociais, como já havia feito antes. eu espero, de verdade, ter conseguido a minha paz. era só isso que eu queria. é só isso que eu quero.




Explaining what I feel, that empty feeling




Todos esses acontecimentos, ao longo de três anos, mexeram muito comigo e hoje eu não me considero uma garota psicologicamente saudável. Sei que ainda tenho muito o que caminhar, mas é desgastante e a cada nova crise bate uma desesperança de que um dia eu volte a ficar bem. Nem tudo foi consequência dessa violência, porque mesmo antes eu já enfrentavas algumas dificuldades, mesmo que mais brandas do que hoje em dia, mas com certeza passar por isso piorou a minha qualidade de vida em 500%.

Sair de casa é difícil, cuidar de mim mesma é difícil e encontrar ânimo para seguir uma rotina é difícil. Já tive dias de não querer levantar. A ideia de entrar em contato constante com pessoas e de me sentir exposta a elas estava insuportável, me desesperava (e em algumas ocasiões ainda desespera). Como eu pretendia seguir como uma estudante de comunicação dessa forma? Como se nada estivesse acontecendo? Eu não podia. Então eu decidi abandonar o curso.

Tranquei a matrícula como uma medida temporária, mas a verdade é que eu não pretendo voltar — pelo menos não para comunicação. Estou, aos poucos, refazendo planos e considerando novas possibilidades para a minha vida. Eu preciso de um novo começo. Quando penso em retrospectiva, tento encontrar uma justificativa para ter escolhido estudar Jornalismo lá em 2015, mesmo tendo passado a vida escolar inteira sendo mais das exatas. E jamais encontrei uma resposta. Já cheguei a pensar que eu apenas tinha que passar por isso, para aprender algumas coisas e amadurecer, mas logo refutei a ideia. Nenhuma mulher precisa passar por uma situação de violência para atingir o seu crescimento pessoal.

Passar por isso não me fez mais forte. Não me tornou uma pessoa melhor. Passar por isso apenas me fez ser mais uma vítima em meio a tantas. Mais um caso em uma delegacia. E nada além.

Apesar de tudo, não me arrependo das escolhas que fiz. Conheci duas mulheres incríveis a quem posso chamar de amigas. Elas fizeram esses anos terem valido a pena e sempre foram um porto seguro em um ambiente que me era tão hostil. Layla e Laize, obrigada pelo companheirismo e pela força. Vocês são imensamente importantes para mim. Enquanto nós conseguirmos tirar sentimentos bons, nada jamais será uma perda de tempo.

Estou escrevendo isso duas semanas após ter ido à secretaria do curso solicitar o trancamento da matrícula. Em alguns momentos é preciso parar e refletir se o que estamos fazendo tem algum sentido e se está nos fazendo bem — e tudo bem se concluirmos que não.

Desistir nem sempre significa fracassar. Muitas vezes, na verdade, desistir significa ter coragem.




Don't back down, concentrate on seeing



Não pretendo permitir que tudo isso tire o brilho que eu sempre enxerguei na vida. Sempre soube que quero mais, que a vida deve ser mais do que obrigações, medos, inseguranças e fórmulas prontas. Apesar de estar muito difícil, eu sei que tenho a imensa sorte de ter pessoas maravilhosas ao meu lado e amigas que estão ali por mim – Lily, Nati, Barbie e Aninha, obrigada por serem vocês e por sempre me ajudarem tanto. Eu sei que vou conseguir superar tudo isso – mesmo que agora pareça impossível.

Apenas o fato de conseguir escrever sobre isso e deixar público para quem quiser ver – mesmo que quase ninguém vá ver – já é algo a considerar. Sou do tipo de pessoa que prefere compartilhar coisas boas, porque todos nós já sabemos o que carregamos de ruim. Em parte me entristece publicar um texto com esse teor no lugar que eu mais amo na internet – o lugar que eu construí com tanto carinho junto com a Lily, e mesmo essa decisão não foi fácil.

Demorei algum tempo para decidir realmente tornar público o meu relato. Não queria fazer dele — do cara que me fez mal — um protagonista no meu lugar na internet. Demorei, mas enfim percebi que publicar esse texto não significa nada parecido. Significa que eu consegui ser forte o suficiente para expor uma situação delicada, corriqueira e que muitas vezes é menosprezada mundo afora. Significa que eu estou impondo a minha voz e falando sobre mim. Sobre os meus sentimentos. sobre o meu crescimento e sobre o quanto eu consegui amadurecer e retirar o máximo possível de coisas boas diante de uma situação péssima. Eu tenho pessoas — mulheres — maravilhosas na minha vida. Publicar esse texto significa que a força de todas elas juntas, ao meu lado, me deixou mais forte. Algumas coisas simplesmente precisam ser ditas. Essa é uma delas.

Ainda tenho pesadelos a respeito de tudo o que aconteceu. Ainda acordo com uma sensação ruim de que esse pânico e essa tensão nunca vão passar. De que eu não vou conseguir esquecer. Mas eu vou. Eu ainda tomo remédios para a ansiedade social, para amenizar o meu medo e para voltar a levar uma vida normal. para melhorar a qualidade da minha vida, que há muito tempo era praticamente nula. E tudo bem. Está perfeitamente bem precisar de ajuda. Alguns fardos nós não precisamos carregar sozinhas.

Se você leu até aqui, obrigada. Todos esses fatos agora fazem parte da minha história. Mas eles, definitivamente, não a definem.

O assédio moral e a violência psicológica contra mulheres existem. Eles estão bem ali, onde quase ninguém vê — e podem causar danos irreversíveis. Se você passa por isso, por favor, fale. Nós temos voz. Você tem voz.

E ela merece ser ouvida.

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The past is still the past, the bridge to nowhere...



*os trechos ao longo do post foram retirados da música Should Have Known Better, do Sufjan Stevens. Ela é maravilhosa. 
*o poema faz parte do livro Tudo nela brilha e queima, da Ryane Leão. Também é maravilhoso. 


Escrito por: Jennifer Macieira


 
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