13 de dezembro de 2017

minha lista de livros pra ler — dezembro 2017

books are love

Eis que, de repente, me encontrei no meio de dezembro e percebi o quanto várias coisas na minha vida estavam estacionadas. Então pensei: por que esperar o ano novo iniciar para começar a mudar isso? 

Finalmente estou começando a me recuperar e a me renovar diante do caos que foi a minha história em dois mil e dezessete. Um ano em que fui tão violentamente agredida psicologicamente que fez com que eu simplesmente não conseguisse nem mesmo ler. Um ano em que eu tive que reaprender a gostar de mim mesma e reaprender a gostar de fazer as coisas que eu gostava de fazer.

Um ano tão difícil que o silêncio, necessário para que eu realizasse minhas leituras, se transformava em pensamentos inquietantes que me deixavam completamente desnorteada — por esse motivo, dois mil e dezessete foi também o ano em que eu mais descobri músicas e artistas novos, os quais passei a amar. A música se tornou o meu novo refúgio da vida real. Mas agora eu estou disposta a retomar o controle da minha vida e das minhas ações, começando com coisas simples como o hábito da leitura.

Então aqui está a relação de todos os livros que tenho disponíveis em casa para ler, seja na biblioteca do kindle ou na estante do meu quarto. Todo início de mês vou publicá-la — devidamente atualizada — e tenho certeza que vou ficar muito feliz durante o processo. 


— em português
  1. cartas maiores
  2. eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
  3. se estivesse aqui...
  4. o sorriso da hiena
  5. a cor púrpura
  6. dom casmurro
  7. boa noite
  8. a caminho do altar
  9. menina má
  10. entre o amor e a vingança
  11. entre a culpa e o desejo
  12. o leopardo
  13. eu te darei o sol
  14. mosquitolândia
  15. dezenove minutos
  16. os bons segredos
  17. yargo
  18. tudo que você e eu poderíamos ter sido se não fôssemos você e eu
  19. toda luz que não podemos ver
  20. 360 dias de sucesso
  21. ratos
  22. o segredo do meu marido
  23. eve & adam
  24. reconstruindo amelia
  25. desde o primeiro instante
  26. belle époque
  27. réquiem
  28. belleville
  29. vinte garotos no verão
  30. a pílula do amor
  31. a garota que você deixou para trás
  32. quem é você, alasca?
  33. filha da floresta
  34. fator nerd
  35. os adoráveis
  36. quero ser beth levitt
  37. a maldição da pedra
  38. todo dia
  39. sombra e ossos
  40. os homens que não amavam as mulheres
  41. cante para eu dormir
  42. como dizer adeus em robô
  43. p.s. eu te amo
  44. a lista negra
  45. a viagem do tigre
  46. o destino do tigre
  47. um lugar para ficar
  48. a moreninha
  49. deslembrança
  50. a linguagem das flores
  51. passarinha
  52. um teto todo seu
  53. um, dois e já
  54. elas por elas
  55. a princesa salva a si mesma neste livro

— em inglês
  1. blue is for nightmares
  2. white is for magic
  3. silver is for secrets
  4. change of a dress
  5. love & gelato
  6. emma
  7. persuasion
  8. northanger abbey
  9. the manifesto on how to be interesting
  10. keeping the moon
  11. never always sometimes
  12. steering the stars
  13. our chemical hearts
  14. since you've been gone
  15. dumplin'
  16. close enough to touch
  17. one christmas in paris
  18. a thousand pieces of you
  19. how hard can love be?
  20. am i normal yet?
  21. landline
  22. everything that makes you
  23. the rest of us just live here
  24. love like crazy
  25. the next together
  26. you don't have to say you love me
  27. the shadowland
  28. it's not me, it's you
  29. after the last dance

Sei que são muitos livros, mas estou animada para finalmente movimentar a estante. E também estou animada para voltar a cuidar do uma reescrita, meu cantinho de amor que infelizmente também precisei deixar de lado por um tempo. 

Eu simplesmente não podia escrever algo que não passasse minimamente o maior sentimento que buscamos cultivar por aqui: o amor — de todas as formas, sem nenhum julgamento.

Porém, como eu disse, é tempo de mudar esse quadro.




Com muito carinho,
Jen


Escrito por: Jennifer Macieira
Arquivado em


 
11 de dezembro de 2017

Parque das Luzes, Parque da República e Parque dos Pés Descalços

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL

Esses três parques estão situados tão próximos uns dos outros que, ao visitar um, você precisa completar o circuito e conhecer os outros também. São áreas de lazer muito legais localizadas no centro de Medellín, o que chama atenção automaticamente, porque, no meio do caos, dos prédios altos e dos carros passando nas avenidas, o verde toma conta e promove momentos de relaxamento para quem quer que passe pelos arredores.

Quem está na cidade de passagem pode não notar e enxergar esses espaços apenas como mais alguns pontos turísticos, mas eles são verdadeiros tesouros para quem vive por ali, seja para dar uma pausa após um longo dia de trabalho, para fazer um passeio com a família, com os amigos ou até mesmo sozinho.

O parque de los pies descalzos é o maior exemplo disso, porque ele trás uma proposta super legal, que é a de você tirar seus sapatos e curtir a natureza que ele te oferece. Há ambientes com areia, pedrinhas, água, entre outras texturas e superfícies que você pode sentir com os pés e se conectar com a energia do planeta. 

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL

Quando eu fui até lá pela primeira vez, não tinha muita noção do que esperar. Desci na estação alpujarra, o que me fez passar pela plaza mayor e pelo teatro metropolitano, e andei por um caminho relativamente longo para chegar até o parque, que nem parecia tão grande assim. 

Só depois que um guarda municipal muito simpático e solícito nos indicou que o parque não terminava ali, provavelmente percebendo o quão perdidas eu e Manu parecíamos, foi que nós encontramos uma espécie de continuação, passando por uma caminho de árvores muito bonitinho.

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL
Nessa segunda parte do parque, além de ter mais áreas de lazer, bosques e banquinhos, há também uma espécie de galeria com lanches rápidos e restaurantes.

O espaço é todo voltado para que você relaxe e se sinta à vontade. Até encontrei alguns carrinhos cheios de livros, que ficam disponíveis para quem quiser pegar. Você também pode deixar algum para enriquecer o acervo. Vi várias pessoas lendo, praticando exercícios e crianças brincando, especialmente nos ambientes com água.

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL

Ah! Outra coisa que eu amei é que, espalhadas pelo parque, existem algumas pedras com frases de incentivo. Não cheguei a fotografar nenhuma, mas não só nelas se pode encontrar esse tipo de frase. Há dizeres muito amorzinhos em plaquinhas de madeira também e nos carrinhos de livros.

E se você quer ficar longe do tumulto e de onde a maioria das pessoas fica, o parque ainda conta com alguns banquinhos mais afastados, em ambientes muito tranquilos, além de seguros, porque em Medellín as áreas públicas são protegidas. Pelo menos quando eu as visitei, foi o que eu notei.

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL

Lá nos arredores, nos avistamos também o museo del agua. Como estávamos com tempo de sobra, porque fomos num fim de semana, eu e Manu nos aventuremos nesse tal museu, mas ele não é uma programação que eu recomendaria, porque o tour é um pouco demorado e você precisa esperar todo o circuito guiado terminar para sair.

Além disso, as informações contidas lá dentro são basicamente referentes às aulas de ciências que tivemos no colégio, com poucas coisas referentes à Medellín em si, o que acabou sendo desinteressante pra gente. Foi a única coisa paga do nosso passeio e nem valeu a pena, então, apesar de nos ter custado pouquinho, cerca de 5.000 COP, ficamos com a ideia de que poderíamos ter aproveitado melhor os outros espaços, que são gratuitos.

Museu da água, Medellín • COL
+ Moeda colombiana, custo de vida e casas de câmbio em Medellín

Saindo das mediações do parque dos pés descalços, caminhamos até a plaza de los cisneros, também conhecida como parque de las luces, pelos vários postes dispostos no local - altíssimos e bem chamativos.

No caminho, nos deparamos com o parque de la república, que dispõe de alguns monumentos interessantes, mas ele se torna algo apenas para se olhar de passagem, sem realmente apresentar um ambiente de lazer.

Parque dos Pés Descalços, Medellín • COL Parque das Luzes, Medellín • COL

O parque das luzes, por sua vez, além de lindinho, pelos postes que lhe dão nome, conta com uma biblioteca muito completa, que disponibiliza espaços de estudo, acesso à internet e uma vista bonita para o parque, além de exposições de arte.

Para entrar, eu precisei fazer um cadastro bem burocrático, que pediu que eu mostrasse meus documentos, que eu tirasse uma foto e que passasse por um detector de metais, mas isso tudo só reforça o que eu disse sobre a segurança. Ela é do grupo EPM, das Empresas Públicas de Medellín.

Biblioteca EPM, Medellín • COL Biblioteca EPM, Medellín • COL

À noite, as redondezas vão ficando um pouquinho mais esquisitas sim, como em qualquer outro lugar, então a dica é aproveitar o fim da tarde para ver as luzes acesas.

Só quando chegamos ao fim do nosso circuito é que eu percebi o quão pertinho era o parque das luzes da estação san antonio. Tipo, muito mesmo. Então quando voltei em um outro momento, com outros amigos, descemos por lá e parece que deu tempo de explorar mais coisas antes do anoitecer.

Em frente a ele, ainda tem um shopping enorme constituído de, basicamente, uma praça de alimentação - útil em todas as vezes que eu passei por lá.

Parque das Luzes, Medellín • COL

Essa é uma programação bem tranquila e good vibes para fazer em Medellín, desacelerar um pouquinho e só passar um tempo bom, aproveitando a natureza, sua própria companhia ou a de outras pessoas. ♡ É um dos motivos pelos quais eu elogio tanto a organização da cidade e seu incentivo às áreas de convivência.

nos acompanhe pelo face • insta  youtube 


Escrito por: Lisete Reis


 
9 de dezembro de 2017

Uma semana brasileira na Fundação Gota de Leche | Projeto Merry Christmas - Parte II

Fundação Gota de Leche, Medellín

Atividades improvisadas, mas desenvolvidas com muito empenho e carinho marcaram minha experiência no projeto merry christmas, especialmente na segunda semana em que eu trabalhei na gota de leche, porque tivemos espaço e liberdade para liderar uma turma de crianças mais velhas com o auxílio de suas professoras, e não o contrário. Finalmente conseguimos falar do Brasil e tomar o controle da situação para fazer a descrição do nosso projeto acontecer.

Perdemos tardes inteiras desenvolvendo algumas das nossas ideias, viramos noites e passamos alguns perrengues, mas pequenos gestos dos pequenos, sorrisos e palavras nos deixaram bobonas e muito satisfeitas com os cinco dias de festas e cultura brasileira que conseguimos promover na fundação! Toda a equipe foi muito generosa e solícita conosco, seja distraindo as crianças até aprontarmos tudo, seja nos ajudando a nos comunicarmos com elas da melhor forma, além de nos cederem materiais de papelaria e artesanato para algumas das nossas invenções. Se você pretende participar desse projeto no futuro, poderá tirar daqui ideais bem legais.

Os mexicanos também fizeram um trabalho muito bonito e a medida que eu for falando sobre o que eu a Manu fizemos, vou tentar relembrar a marca que eles deixaram também - dentro e fora dos bastidores. Tive a sorte de conhecê-los e de conhecer a cultura mexicana de um jeito diferente, mais informal e autêntico, de forma que todos os dias eu aprendia algo novo, a ponto de eu começar a escrever algumas coisas e ficar ainda mais curiosa para conhecer seu país.

Para entender todo o processo que nos trouxe até esse momento, sugiro a leitura de pelo menos esses três posts, especialmente se você tem a intenção de participar do voluntariado:
Mas eis aqui nossas peripécias diárias...


dia 1: apresentação

Fundação Gota de Leche, Medellín

No primeiro dia nessa turma nova, ficamos meio perdidas. Passamos o fim de semana anterior em Guatapé e só voltamos para Medellín no domingo à tarde, exaustas para sequer nos preocuparmos muito com isso, então a Manu teve a ideia de levarmos apenas alguns desenhos de bandeirinhas do Brasil e palitos de churrasco para as crianças pintarem com as cores corretas e guardarem de lembrança. Eu já tinha feito alguns slides com fotos que podiam ser curiosas para elas e que podiam ajudar a nos guiar quando nos apresentássemos, então levaria meu notebook também e isso era tudo que nós tínhamos.

De última hora, agarrei minha bandeira - de pano, quase maior do que eu mesma - e joguei na mochila alguns objetos que eu trouxera para esse momento: apitos de madeira, peões, fotos... o que nós usaríamos de fato, eu ainda não sabia, mas o que poderia ser útil, estava ali dentro. Chegando lá, já um pouco atrasadas, todos nos esperavam num roda que tomava conta de toda sala. Os mexicanos estavam lá e duas professoras encarregadas de nos auxiliar. Eu e a Manu olhamos para a cena ainda do lado de fora, pela janela, e sorrimos de nervoso, mortas de vergonha de entrar de fato. Mal sabíamos que seríamos tão bem recebidas e acolhidas por eles.

As professores pareciam tão curiosas quanto os pequenos e nos ajudaram a organizar uma pequena apresentação para aquele primeiro dia, que acabou se alongando por toda manhã. Nós falamos um pouco sobre de onde surgiu o nome do nosso país, mostramos alguns animais, alguns desenhos animados e o que quer que tivesse me dado na cabeça no momento em que montei aqueles slides. Como neles só haviam fotos, cabia a nós inventarmos algo para falar em cada uma! E diante daquela telinha minúscula, todos queriam estar pertinho para ver, o que acabou deixando todo mundo reunido em volta da cadeira, de mim e de uma das professoras, que muito gentilmente, segurava a nossa bandeira.

Fundação Gota de Leche, Medellín

E os pequenos não ficavam calados, pelo contrário, perguntavam sobre tudo e nós fazíamos o melhor para respondê-los. Às vezes, eles viravam nossos professores, falando sobre as diferenças da nossa cultura para a deles. Quando apareceu uma fotinho de uma arara, por exemplo, nós os ensinamos a falar a palavra, depois eles prontamente nos disseram que ela se chamava guacamaya em espanhol - o que eu não fazia ideia. Em outro momento, falamos sobre os significados das cores na nossa bandeira e eles nos falaram sobre os das cores na bandeira da Colômbia! Uns fofinhos, sim senhores.

No momento da pintura, todos se concentraram naquilo. Nos dias seguintes, percebi que era uma das coisas que eles mais gostavam de fazer. Alguns eram muito cuidadosos, enquanto outros misturavam as cores - saiu até uma bandeira toda marrom, pois bem. Mas era muito legal ver todo mundo participando, ansiosos para nos mostrarem os resultados.

O único perrengue desse dia foi que faltaram desenhos, porque a turma era maior do que a gente previu. Além disso, os tais pequenos zelosos sobre os quais falei, queriam fazer mais de uma para que a pintura ficasse ainda mais certinha, então a Manu teve que correr numa lojinha lá por perto para imprimir mais, enquanto eu os distraia.


dia 2: carnaval

Fundação Gota de Leche, Medellín

Depois da nossa pequena introdução, tivemos a ideia de fazer um dia temático para cada dia da semana que restava e nada melhor que começar com o carnaval, mas como só tivemos a ideia quando terminamos as atividades da segunda, tivemos apenas uma tarde e uma noite para organizar tudo e produzir umas trinta máscaras coloridas e divertidas para as nossas crianças.

A tarde foi um fracasso, como vocês bem viram no post sobre o el castillo, então eu e a Manu tivemos que nos separar. Virei a noite na mesa da minha host com um estilete, cola, pedaços de lã coloridas, cartolinas e elásticos. 

O pior foi que, chegando lá, nos demos conta que além das nossas atividades, eles participariam de um juego con bombas. Não lembro se já comentei aqui, mas nessa fundação eles desenvolvem atividades diferenciadas em dias aleatórios e acabou que uma delas caiu bem no dia do nosso carnaval.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Por isso que, no começo, pensamos que o dia seria um desastre, mas carnaval combina com bagunça mesmo e a bombinhas de água ajudaram no efeito. Pena que não tivemos coragem de picotar nossas cartolinas coloridas para fazer confetes. Aquilo seria bagunça até demais misturadas com água, não seria, não?

Fundação Gota de Leche, Medellín

Antes do juego, colocamos marchinhas de carnaval, músicas de axé, dançamos, pulamos, mostramos vídeos e entregamos nossas máscaras para eles, que fizeram filinha para cada um receber a sua. Uma graça!

As atividades do dia foram simples, mas eu morri de amor com a empolgação deles, ainda mais quando vi que eles tiveram a preocupação de pedir para tirarmos suas máscaras antes de eles saírem para se molhar. E o mais fofo ainda estava por vir: depois do almoço, quando as professoras os prepararam para a soneca do dia, eu e Manu passamos para vê-los e pelo menos três crianças dormiam com elas. Todo o esforço valeu a pena para guardar aquela cena.

Fundação Gota de Leche, Medellín

Enquanto isso, os mexicanos se organizavam para entrar na nossa brincadeira cultural.

Eles não fizeram atividades diárias como nós, mas os três dias em que eles resolveram se empenhar compensou pelos outros. Diferentemente da gente, eles não tinham um pingo de vergonha e pediram para reunir todos os alunos da fundação numa sala de vídeo, onde introduziram um pouquinho do México, a Soff e a Azu pintadas de catrina e tudo! Para falar sobre o día de los muertos.


Fundação Gota de Leche, Medellín
Fundação Gota de Leche, Medellín

Acabou que as crianças pequenas ficaram muito inquietas, mas o interesse dos mais grandinhos - incluindo eu e as outras professoras -  foi mais do que suficiente. Até a diretora foi prestigiar!


Escrito por: Lisete Reis


 
4 de dezembro de 2017

O amor segundo Buenos Aires

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

Uma leitura sincera, bonita e sutilmente crítica fez a minha felicidade nos últimos dias. Nunca mais tinha falado de livros por aqui, mas a vontade de recomendar o amor segundo buenos aires me trouxe até esse post. Parece que andei pelas ruas de san telmo, vivi os dilemas dos personagens e me apaixonei por eles, tudo de uma só vez. Eles têm personalidades reais e a escrita do autor brasileiro traz uma verdade crua que me agradou bastante. Um dos aspectos que mais me encantou foi a forma com que os personagens conseguem ser fiéis a eles mesmos e ao que acreditam, apesar de suas reservas e inseguranças, algo raro nos dias de hoje, se você parar para analisar, mas que não deveria ser.

O livro aborda questões relativas ao amor, como o título bem sugere, mas vai além do esperado. É fiel a esse sentimento complexo, que pode envolver tantos aspectos das nossas vidas, e abandona a tendência de escrever apenas sobre o amor que se sente por um companheiro ou paixão casual. O autor enxerga o poder do amor que se pode sentir por um amigo, por algum familiar, por alguém completamente aleatório que acabamos de conhecer, por si próprio ou, até mesmo, por um lugar, porque esse sentimento não é escravo do tempo, do sangue, nem de qualquer outra coisa.

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

Para retratar isso, ele brinca com as perspectivas de todos os envolvidos na história, inclusive da cidade, de modo que a cada capítulo conhecemos alguém mais a fundo, sob o olhar de outra pessoa. Parece algo tão despretensioso, simples até, mas essa percepção faz toda diferença no livro, porque a forma com que uma pessoa percebe outra na vida dela é única, nunca vai ser igual a de mais ninguém, seja pelo nível de convivência, de entendimento ou de identificação entre elas.

Em alguns momentos, era emocionante, bonito mesmo, conhecer versões diferenciadas dos personagens que já conhecíamos superficialmente, porque, vocês sabem, às vezes, nossas melhores versões podem não ser nossas, podem estar nos olhos do melhor amigo, do irmão, dos pais ou do companheiro, de alguém que nos enxerga de uma forma que não conseguimos sozinhos.

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

O autor nos faz viajar dentro desse conceito e através dessa construção, capítulo a capítulo, refletimos sobre todas as formas de amor, de modo que não temos figurantes ou papéis secundários. Mas se eu precisasse eleger alguma protagonista para essa história, eu diria que esta seria a cidade. Buenos Aires. Ela faz parte da formação ou do rompimento de cada relação exposta no livro, como se influenciasse de alguma forma para o crescimento pessoal de cada personagem, e isso foi algo muito legal de acompanhar. Nós temos a chance de viajar por suas ruas de uma forma pouco convencional e conhecer lugares que passam longe dos pontos turísticos, mas que são ainda mais interessantes, porque neles sim moram as descobertas e a costumes de quem vive por ali.

No começo de cada capítulo, o autor nos premia com um lugar relevante para a história que irá se desenrolar e nos situa no contexto dos personagens, o que ajuda muito na imersão dessa proposta. Alguns detalhes são obras da editora, mas esse cuidado visual em integrar o leitor à intenção do autor também faz a diferença.

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

Em relação aos personagens em si, apesar do que eu falei, alguns aparecem com mais frequência que outros, sendo Hugo aquele que parece unir todas as histórias. Ele dá início ao livro, narrando seu ponto de vista em relação a Leonor, que foi o motivo inicial para que ele saísse do Brasil e fosse até a Argentina, onde passou a morar. As coisas não andavam bem entre eles, mas a ideia que fica desse pontapé inicial é a de que nem todos os amores devem durar, ainda mais por comodismo, se não fazem bem algum para ambos. Em contrapartida, dele podem surgir outras relações incríveis, como a que Hugo criou com a cidade, com Eduardo, Carolina e Daniel.

A amizade de Hugo com Eduardo é uma das relações mais lindas e mais simples que já conheci na literatura, como se os dois tivessem liberdade, num entendimento silencioso, para estar na vida do outro em todos os sentidos e, inconscientemente, saber o que é melhor naquele momento, porque eles se conhecem bem assim. É até engraçado quando Hugo fala que seu pai sente ciúme de Eduardo no momento em que Hugo mais precisa de apoio, durante seu tratamento para o câncer, mas eu não duvido da verdade no seu argumento:

“A conexão entre dois completos estranhos pode ser mais forte do que a compartilhada por duas pessoas que sempre moraram na mesma casa. (...) A ligação entre dois melhores amigos é a mais pura que pode existir.”

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

Eduardo é homossexual, o que poderia nos levar a pensar que a amizade deles os faria confundir as coisas, mas a relação deles vai muito além desse tipo de paixão. Com quem Eduardo se conecta depois, muito por causa de Hugo, é Daniel, um homem introvertido que trabalha como garçom, mas determinado, com um sonho a alcançar. O capítulo em que Daniel fala de Eduardo é um dos mais bonitos do livro, pronto para desconstruir qualquer tipo de preconceito, especialmente no desfecho da história.

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

"Quando sinto esse compasso infinito de sentimento, de repente minha vida deixa de ser uma lista de tarefas a serem cumpridas para começar a fazer sentido."

Eu também adorei a Carolina, uma comissária de bordo louca para dar uma reviravolta na sua vida - com uma quedinha pelo Hugo na bagagem. Ela é alguém por quem torcer, tanto que quando ela consegue conhecer alguém especial, que dá o impulso que ela precisava para fazer o que queria, não tem como a gente não ficar feliz. A coragem dos personagens para fazer algumas mudanças drásticas, mas necessárias, são até inspiradoras de alguma forma.

Seu Pedro, pai do Hugo, fica responsável por nos apresentar um tipo de amor mais maduro, que ultrapassa qualquer estigma de idade, sem falar no carinho e respeito que sente pelo filho.

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller

Na contracapa, o autor interage com os leitores, dizendo que se você já amou demais ou se acredita que todo amor vale a pena, então esse livro seria para você. Achei que não me encaixava em nenhum dos dois times, até que li o texto completo do qual esse trechinho faz parte, no prólogo, e antes mesmo de começar a leitura, eu soube que sim, esse livro era para mim. E é, provavelmente, para todas as outras pessoas no mundo, porque...

"A única razão para se desdenhar do amor é a ausência dele."

O amor segundo Buenos Aires |  Fernando Scheller



*compras realizadas através dos nossos links geram uma comissão para o blog e nos ajudam a mantê-lo!


Escrito por: Lisete Reis


 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

https://twitter.com/maccieirahttps://www.instagram.com/jennifermacieira/https://www.flickr.com/photos/113227884@N07/



https://www.instagram.com/lisete_reis/https://www.flickr.com/photos/153046504@N02/

Facebook

Instagram

Youtube

Newsletter

Publicidade

Booking.com